O Barroco Contemporâneo

O Barroco não foi apenas uma fase: ele continua pleno nos meios artísticos contemporâneos, inclusive na moda. Dito isso, esqueça os recentes desfiles da Dolce & Gabbana, claramente inspirados no período, pois o propósito não é apontar o que os próprios criadores queriam que nos remetesse, mas sim as características da arte barroca que não nos damos conta que ainda são comuns em nosso dia-a-dia ao nos deparamos com certas fotografias.

Campanha Alxander McQueen por David Sims, Outono 2011.

Campanha Alxander McQueen por David Sims, Outono 2011.

Vênus e Cupido, Sebastiano Ricci, 1700.

Vênus e Cupido, Sebastiano Ricci, 1700.

Bette Franke por Nathaniel Goldberg.

Bette Franke por Nathaniel Goldberg.

Em nosso mundo contemporâneo é realmente difícil definir um padrão artístico que ilustre de maneira homogênea os valores e ideologia de um povo, devido à efemeridade e pluralidade de gostos e estilos que encontramos. O nível extremo dessa situação que encontramos hoje teve suas origens há pouco mais de 500 anos, com o advento do capitalismo e novas classes sociais surgindo. O autor Arnold Hauser (1995), afirma que se nem na Idade Média e na Renascença, onde o domínio pertencia a uma só classe, a arte não era 100% homogênea, isso se mostraria muito mais em uma sociedade onde há mais de um grupo no poder – no caso, a nova burguesia e classe média que surgiu no final da Idade Média e início da Idade Moderna. E foi justamente no movimento Barroco que percebemos melhor a afirmação de Hauser. Ao analisarmos a arte e sua história, podemos reconhecer no Barroco o movimento em que, definitivamente, as características de cada pintor podem ser mais próprias, ocorrendo uma maior dissonância entre cada artista. Podemos dizer que o Barroco chegou a uma liberdade nas formas, que não são isoladas entre si como no Renascimento, mas todas parecem “se tocar” ao observarmos uma pintura do período.

Vênus e Sátiro, Sebastiano Ricci, 1618-20.

Vênus e Sátiro, Sebastiano Ricci, 1618-20.

Judite e sua serva, Artemisia Gentileschi, 1613-14.

Judite e sua serva, Artemisia Gentileschi, 1613-14.

Cena Báquica, Nicolas Poussin, 1627.

Cena Báquica, Nicolas Poussin, 1627.

Os Jogadores, Caravaggio, 1594.

Os Jogadores, Caravaggio, 1594.

 A moda, que muitas vezes é tomada como castradora no nosso dia-a-dia, mostra sua face libertária nos editoriais de revistas como Vogue Itália ou Numéro. Nelas, o lúdico, o sonho e a fantasia são abusados, sendo as roupas apenas meras parte de todo o cenário, fazendo assim a moda se apoiar em um conceito, não apenas em uma peça objetiva. Esses editoriais, é claro, não se caracterizam por apenas um estilo de fotografia, tema ou cenário (talvez a única coisa realmente padrão sejam as modelos), pois estão dentro do contexto global e plural, já mencionado, porém, em meio aos diversos editoriais minimalistas, limpos, centrados nas linhas exatas e racionalidade, que costumam representar uma moda mais “futurista”, estão os editoriais dramáticos, agressivos, apaixonados e que muitas vezes são tidos como “estranhos”. São as características artísticas do movimento Barroco que permanecem em nosso mundo contemporâneo, porém de maneira natural, sem associarmos necessariamente a um estilo de 500 ou 400 anos atrás, o que mostra que foi um passo importante para a arte em questões de forma e composição. Isso não acontece, por exemplo, com o estilo medieval e renascentista. Ambos são muito mais sólidos e fechados, mesmo tendo o Renascimento buscado um naturalismo cada vez maior. Se vemos uma fotografia com uma composição e forma renascentista ou medieval, automaticamente associaremos a esses períodos, e reconheceremos uma intenção do artista em transmitir e remeter à arte dos mesmos (eu realmente tentei encontrar um editorial que tivesse uma composição e forma – não inspiração – próxima a um quadro medieval ou renascentista, mas só o que consegui foram mesmo inspirações).

Lily Cole por Miles Aldridge para Vogue Italia, Fevereiro de 2005. Uma imagem claramente inspirada no Renascimento, que se utiliza até da falta de profundidade para nos remeter às pinturas da época. Um detalhe que não passa por nós sem detectarmos essa "estranheza" e associarmos ao período.

Lily Cole por Miles Aldridge para Vogue Italia, Fevereiro de 2005. Uma imagem claramente inspirada no Renascimento, que se utiliza até da falta de profundidade para nos remeter às pinturas da época. Um detalhe que não passa por nós sem detectarmos essa “estranheza” e associarmos ao período.

Vlada Roslyakova por Pierluigi Maco para Vogue China, janeiro de 2007. Outro editorial que se destaca pela sua proximidade com o período Renascentista também pela sua falta de dinamismo e naturalismo (além da figuração, claro).

Vlada Roslyakova por Pierluigi Maco para Vogue China, janeiro de 2007. Outro editorial que se destaca pela sua proximidade com o período Renascentista também pela sua falta de dinamismo e naturalismo (além da figuração, claro).

Isso não ocorre necessariamente com uma fotografia que se utiliza do que reconhecemos nas obras barrocas: claro e escuro, sensação de profundidade com fluidez (não com a separação objetiva de cada objeto separados em planos, como vemos no Renascimento), elementos interagindo um com o outro na cena, etc. Esses elementos são recorrentes em nossa época contemporânea, trabalhados de maneira condizente à nossa atualidade.

Malgosia Bela por Greg Kadel para Vogue Espanha.

Malgosia Bela por Greg Kadel para Vogue Espanha.

Jessica Stam por Steven Meisel.

Jessica Stam por Steven Meisel.

Jessica Stam por Steven Meisel.

Jessica Stam por Steven Meisel.

As revistas de moda, principalmente as direcionadas às classes mais altas, devem mostrar-se à frente de seu tempo e em suas fotografias é onde mais exploram isso. Apesar disso, encontrarmos as características das pinturas barrocas é mais do que algo recorrente, é praticamente uma norma. É um legado que esse estilo deixou e se faz muito satisfatório quando esses veículos de comunicação pretendem impressionar com imagens – o que é praticamente obrigatório para uma revista de moda que trabalha com peças de Alta Costura ou simplesmente ideias. Não me refiro, por exemplo, à referências explícitas e declaradas ao Barroco, que têm sido comum nas últimas temporadas e vêm tendo influência na moda. Refiro-me à composição e formas dentro das fotografias, de um ponto de vista puramente técnico. Porém, além desse olhar técnico, percebemos também a intenção que as pinturas barrocas e essas fotografias de moda compartilham. Como afirma Hauser, o Barroco transformou o “tátil” em “visual” e a “substância em mera ‘aparência’”, além da concepção do mundo como “impressão e experiência”, colocando, assim, a subjetividade como fator principal. A fotografia das revistas de moda já citadas se apoiam em todos esses conceitos e são justamente esses elementos que as colocam como revistas avançadas e vanguardistas dentro da área. O que também nos leva a outra referência de Hauser sobre o Barroco:

“O progresso normal da própria evolução histórica desempenha um certo papel no crescente desagrado por tudo o que seja demasiado claro e demasiado óbvio, no processo que se desenrola no seio de uma cultura em contínuo desenvolvimento do simples para o complexo, do claro para o menos claro, do óbvio para o escondido e o velado. Quanto mais culto, exigente e inteligentemente interessado em arte é um público, mais ele pede essa intensificação de estímulos artísticos.” (HAUSER; ARNOLD, 1995, p. 447).

Essa citação se encaixa perfeitamente a quem os editoriais de moda dessas revistas são direcionados: um público mais exigente, que se interessa não só pelo produto de moda pronto, mas pelo contexto e relações que ele está inserido. A moda é representada de maneira sutil; ela não é apenas a roupa, mas todo o cenário que a envolve.

Siri Tollerod por Miles Aldridge.

Siri Tollerod por Miles Aldridge.

Nastya Kusakina por Jeff Bark para Dazed & Confused.

Nastya Kusakina por Jeff Bark para Dazed & Confused.

Assim, dentro dessas semelhanças que envolvem a pintura Barroca e a fotografia de moda atual, podemos ver que alguns detalhes artísticos aparecem, mas não desaparecem. É verdade que na fotografia de moda esse estilo convive paralelamente à sua antítese: um cenário clássico, limpo e racional também é comum hoje. Mas em uma época em que muitos estilos diferentes convivem, o estilo mais dramático e exagerado da fotografia de moda se sobressai, ora em recorrência de publicações, ora em visibilidade e comentários a seu respeito, quando saem em alguma edição nova. Essas fotografias mexem mais com as emoções dos espectadores e justamente por isso causam mais relações de ‘amor e ódio”, assim como o próprio estilo Barroco, que é referido muitas vezes de maneira pejorativa em certas situações. Mas até mesmo o meio publicitário reconhece e trabalha as emoções de seu público alvo para conseguir o que deseja, pois talvez por mais que tentemos sermos racionais, a irracionalidade nos move e comove.

Natalia Vodianova por Mert & Marcus para W Magazine.

Natalia Vodianova por Mert & Marcus para W Magazine.

Natalia Vodianova por Mert & Marcus para W Magazine.

Natalia Vodianova por Mert & Marcus para W Magazine.

A Conversão de São Paulo, Caravaggio, 1601.

A Conversão de São Paulo, Caravaggio, 1601.

São Francisco em Êxtase, Caravaggio, 1595.

São Francisco em Êxtase, Caravaggio, 1595.

Guinevere Van Seenus por Paolo Roversi.

Guinevere Van Seenus por Paolo Roversi.

Baco, Paulus Bor, 1635.

Baco, Paulus Bor, 1635.

Amber Gray para Marie Claire China.

Amber Gray para Marie Claire China.

Vênus no espelho, Velászquez, 1649.

Vênus no espelho, Velászquez, 1649.

A união da terra e da água, Peter Paul Rubens, 1618.

A união da terra e da água, Peter Paul Rubens, 1618.

Vênus embriagada por Sátiro, Annibale Carraci.

Vênus embriagada por Sátiro, Annibale Carraci.

Daphne Goreneveld por Ellen Von Unwerth.

Daphne Goreneveld por Ellen Von Unwerth.

Naomi Campbell por Steven Meisel.

Naomi Campbell por Steven Meisel.

Adão e eva no Paraíso, Peter Paul Rubens, 1615.

Adão e eva no Paraíso, Peter Paul Rubens, 1615.

Ayten Alpun para Marie Claire Turquia.

Ayten Alpun para Marie Claire Turquia.

Araui Deng por Elle Muliarchyk para I Love You Magazine.

Araui Deng por Elle Muliarchyk para I Love You Magazine.

Pequno Baco Doente, Caravaggio, 1593-1594

Pequno Baco Doente, Caravaggio, 1593-1594

Baco com Ninfas e Cupido, Caesar van Everdingen, 16660.

Baco com Ninfas e Cupido, Caesar van Everdingen, 1660.

Campanha Lee Austrália  Outono 2013

Campanha Lee Austrália Outono 2013

 

 

 

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Porque a Moda Existe

Quando se começa a estudar as origens da moda, lê-se que ela teve origem no período do Renascimento em um sistema que basicamente sai da nobreza e posteriormente espalha-se para a nova burguesia que a copia, à fim de se assemelhar aos nobres. E quando isso ocorre, estes já estão com uma nova moda para si e assim segue por séculos. Esse sistema, que o filósofo Lars Svendsen chama de “gotejamento”, permanece presente até a primeira metade do século XX, mas claro, com cada vez menos força.  Mas apesar da teoria do gotejamento ser verdadeira, não podemos pensar que ela é única razão para a moda existir e se mover, principalmente nos dias atuais, onde esse sistema nem sequer funciona mais. Seria a moda, mesmo há 500 anos, sempre um desejo de diferenciação das classes altas e cópia pelas classes mais baixas ou também foi apenas uma expressão da vontade de mudança, alinhando-se ao capitalismo que começava a surgir?

Francisco I da França, início do século XVI.

Francisco I da França, início do século XVI.

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Primeiramente, uma coisa não exclui a outra, pois com o despertar do desejo de mudanças aliado ao zeitgeist da época, existia a vontade de diferenciação por parte dos nobres e de imitação da burguesia, mas podemos dizer que esta veio posteriormente. Obviamente isso se dava de maneira muito lenta se compararmos com o sistema da moda hoje, pois até o século XIX o conhecimento e preocupação com a moda era inacessível para a classe trabalhadora, que só começou a ter mais acesso a ela devido a forte industrialização dos bens de consumo e assim, tornou roupas aparentemente complexas mais acessíveis e baratas. Isso não fez que as distinções de classes fossem apagadas, mas sim, que todas as classes agora pudessem interagir com a moda, fazendo com que a classe operária corresse mais atrás da moda das classes altas, intensificando o consumo de bens pelo seu valor simbólico, como ocorre até hoje. Como aponta Svendsen: “O desejo por itens de consumo simbolicamente poderosos torna-se então um mecanismo auto estimulador que é ao mesmo tempo causa e consequência de desigualdade social.”.

Aí podemos ver bem a teoria do gotejamento em ação, onde a inovação se dá nas camadas economicamente superiores e depois se espalha para as mais baixas, deixando, assim, estas sempre um passo atrás. Já no século XVIII é possível ver teóricos falando sobre esse fenômeno, como Adam Smith em A teoria dos sentimentos morais (1759):

“É em razão de nossa disposição para admirar, e consequentemente imitar, os ricos e os notáveis que lhes é possível estabelecer, ou conduzir, o que chamamos de moda. A roupa que vestem é a roupa em moda; a linguagem que usam em sua conversa é o estilo em moda; o porte e as maneiras que exibem são o comportamento em moda. Até seus vícios e desatinos estão em moda a maior parte dos homens orgulha-se de imitá-los e assemelhar-se a eles nas próprias qualidades que os desonram e desgraçam.”

E Kant em Antropologia de um ponto de vista pragmático (1770):

“É uma inclinação natural do homem comparar seu comportamento com o de alguém mais importante (a criança se compara com os adultos, o humilde com o aristocrata) para imitar seus modos. Uma lei de tal imitação, que praticamos para não parecer menos importante que outros, especialmente quando não pretendemos obter nenhum lucro com isso, é chamada moda. Ela é portanto da ordem da vaidade, porque não há em sua intenção nenhum valor interno; ao mesmo tempo, é também da ordem da insensatez, porque por força da moda temos ainda uma compulsão  a nos submeter servilmente ao mero exemplo que muitos na sociedade projetam sobre nós.”

Esse tipo de pensamento sobre a moda sobrevive até nossos dias, mesmo com ainda mudanças significativas terem ocorrido na sociedade. Podemos dizer que hoje esse sistema está longe de ser o funcionamento real da moda, visto que ela está tão viciada em si mesma e que de 50 anos para cá, a moda das ruas tem influenciado mais as tendências de moda e comportamento. Ainda assim, a diferenciação continua ocorrendo, pois não é possível haver o sistema da moda em uma sociedade se na mesma não houver um conceito forte de individualidade, onde que o impulso social seja maior que o individual. Vivemos em uma era totalmente individualista, que se fortaleceu assim de acordo com o crescimento do capitalismo, mas por isso mesmo, a diferenciação não será mais apenas o pobre querendo parecer ser rico. No século XX, grupos oprimidos se fortaleceram justamente por afirmarem sua diferença, ao invés de quererem parecer-se com o grupo dominante, como a classe operária, movimentos negros e homossexuais. Hoje a moda das classes mais altas consome o vestuário que surge das classes mais baixas e marginalizadas cada vez mais.

Grupo GLBT, anos 70.

Grupo GLBT, anos 70.

Grupo GLBT, anos 70.

Grupo GLBT, anos 70.

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Foto por Jamel Shabazz.

Foto por Jamel Shabazz.

Foto por Jamel Shabazz.

Foto por Jamel Shabazz.

O filósofo Herbert Spencer previa justamente o contrário, pois dizia que a moda tenderia a acabar com a democratização da sociedade, pois não haveria mais a necessidade de diferenciação. Porém quanto mais se destruiu a hierarquia social, mais foi feito o uso da moda como diferenciação, mas aí seria principalmente para a diferenciação do próprio indivíduo e não de uma classe inteira.  Como aponta Svendsen: “(…) temos um espaço social em que é possível fazer distinções, e essas distinções podem certamente resultar em capital cultural e social – mas esse capital não pode ser incorporado numa hierarquia social objetiva.”.

Apesar da teoria do gotejamento ser a explicação mais difundida sobre o surgimento da moda até hoje, ela é também plenamente contestável, pois pode realmente ter sido uma consequência de outros fatores, mas não exatamente o principal motivo. O sistema capitalista, que surgiu junto com a moda, naturalmente deixa a sociedade menos estática, pois é preciso que o capital (que engloba tudo) circular para que o sistema funcione. Mesmo que esse sistema estivesse em seus primórdios, o espírito da época estava lá, levando à necessidade de mudanças ao pensamento coletivo. O sociólogo Herbert Blumer deixa clara essa ideia:

“O mecanismo da moda aparece não em resposta a uma necessidade de diferenciação e emulação, mas em resposta a uma necessidade de estar na moda, de estar em dia com o que é bem visto, de expressar novos gostos que estão emergindo num mundo em mudança.” Essa necessidade de mudança é melhor exemplificada como maior à necessidade de diferenciação de classes quando notamos que nos últimos 50 anos a moda não se difundiu de cima para baixo, como já mencionado.

Apesar de hoje a moda aparentar ser mais democrática, nem tudo anda é permitido pela sociedade. Essa impressão ocorre, pois há uma pluralidade muito grande de estilos e normas coexistindo, sendo que até as roupas mais casuais ou as inseridas dentro de grupo ou movimento de rua (que dizem exaltar o máximo da criatividade e individualidade, seguindo o pensamento de nossa época) passíveis de regras.