Masculino X Feminino por Lipovetsky Parte II

Essa é uma continuação da resenha “Gilles Lipovetsky: Masculino x Feminino”. Para ler a primeira parte, clique aqui.

No final do século XIX e durante o século XX, período que Lipovetsky chama de “Moda de Cem Anos”, fortalece-se a Alta Costura, porém esta é dedicada exclusivamente às mulheres. A moda passa a ser reconhecida cada vez mais como “coisa de mulher”, principalmente após a Revolução Francesa., visto que apenas elas dirigiam-se a costureiros para adquirir novas roupas e personalizadas aos seus gostos. Os vestidos podiam refletir os desejos das clientes pelas cores, detalhes de costura ou aviamentos, algo muito mais restrito aos homens. Estes se limitavam ao terno escuro, sóbrio e formal. As mudanças relativas ao terno masculino sempre foram mais lentas e contidas nos dois últimos séculos: mudavam alguns cortes, cores e modelagem, mas a sua estrutura de lá pra cá permanece até hoje.

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Assim, o século XX, que sofreu drásticas mudanças comportamentais em diversas áreas do conhecimento, naturalmente foi o período que “engrandeceu a moda”, utilizando as próprias palavras do autor. E, ironicamente, foi o período em que grande parte de suas décadas, a moda ficou mais proibida aos homens. Ao passo que as mulheres se divertiam cada vez mais com as várias mudanças e liberdade de criação que a moda vinha proporcionando, paralelamente ela recebia o desprezo masculino, que se mostrava mais avesso às novidades. O sentimento masculino, ainda que inconsciente,  em relação ao terno, é que este é o traje “correto” e por isso não precisa de mais experimentos e mudanças, ao passo que considera a moda como “bobagem” e fútil e a restringe apenas às mulheres.

No universo feminino, a moda chega a ganhar reconhecimento artístico, fornecendo status de artistas aos costureiros: estes deveriam criar trajes que arrancassem suspiros, inspirassem sonhos e despertassem desejo imediato nas mulheres, enquanto que um alfaiate tinha apenas como ofício produzir ternos de qualidade, sem o glamour e atenção da mídia.

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Balenciaga na Harper's Bazaar, dezembro de 1950

Balenciaga na Harper’s Bazaar, dezembro de 1950

Dior - 1950's

Dior – 1950’s

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Como aponta o autor, a moda da modernidade rompeu as diferenças que havia entre ricos e pobres, mas acentuou ainda mais a distinção entre o vestuário masculino e feminino. A um, era permitido sonhar, criar e desejar; ao outro, a norma é a razão, formalidade e funcionalidade. Lipovetsky trata como se se dos homens foi retirado o direito à vaidade e frivolidade, às mulheres perdurou esse direito, talvez porque pela cultura de seduzir e parecer bela seja tão arraigada, que não pôde ser quebrada com novos valores e ideais.

A tecnologia e o fortalecimento das máquinas e indústrias tiraram aos poucos as mulheres do mundo da alta Costura. A produção em massa não pode mais fazer peças tão diferenciadas e exclusivas e, com o fortalecimento do prêt-a-porter, ocorre uma revolução cultural e um novo código jovem, que busca igualar classes sociais, raças e claro, os gêneros. Um forte apelo para a celebração do “eu” é trazido pelos jovens e com a mídia e publicidade, o narcisismo passa a crescer moderadamente entre os homens. A moda jovem é extremamente individualista; é necessário arriscar-se, transparecer seus gostos pessoais e individuais e não se parecer com a média. Chocar e/ou desagradar passa a ser uma consequência e também um fim, e fazer confusão entre os sexos (homens de cabelo comprido nos anos 70, por exemplo) foi um meio de atingir esse objetivo. Com uma sociedade cada vez mais valorizando o novo, a individualidade e a personalização, o homem saiu – pelo menos um pouco – do terno e da moda igualitária.

Joan Jett, Debbie Harry, David Johansen e Joey Ramone em 1978.

Joan Jett, Debbie Harry, David Johansen e Joey Ramone em 1978.

1950's

1950’s

Após a Moda de Cem Anos, onde a moda masculina e feminina habitavam mundos completamente distintos e eram ditados por regras inversas umas às outras, além da contribuição dos jovens, o sportswear foi, segundo o autor, um grande elemento para unir esses dois universos. O corpo humano passa a ser exaltado, mas de uma forma muito diferente do que era feito há quatro séculos, que também mostrava sua preocupação com o corpo pela moda. Se no século XV mostravam essa atenção através de espartilhos, anquinhas e codpieces,  no século XX, a celebração do corpo era deixá-lo natural, saudável e confortável. Sair nas ruas com peças que antes podia-se apenas usar em casa e que eram reconhecidas como roupas de baixo, passou a ser comum. A camiseta t-shirt passou a ser um uniforme primeiramente jovem e depois para todas as idades. Através da moda sportswear, os gêneros acabaram juntando-se em um único traje, pois ambos os corpo, feminino e masculino, sentiam necessidade de estarem à vontade também fora de suas casas, no lazer do fim de semana. A t-shirt e o jeans revolucionaram a moda de ambos os gêneros, mas ainda assim, como mostra Lipovetsky, o vestuário masculino tem duas faces completamente opostas: o sportswear para o lazer e o terno para o trabalho, traje que o conservadorismo masculino não abandonou apesar das revoluções ocorridas em seu guarda-roupa. 

Calvin Klein Jeans - Outono 2010

Calvin Klein Jeans – Outono 2010

Propaganda do jeans Lee  nos anos 60.

Propaganda do jeans Lee nos anos 60.

(Esse texto é parte de uma resenha minha para um trabalho da disciplina “Sociedade e Cultura de Consumo” na ESPM)

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Masculino X Feminino por Lipovetsky Parte I

Fiz uma resenha para uma disciplina do curso de pós-graduação na ESPM sobre a questão dos gêneros masculino e feminino de acordo com o livro “O Império do Efêmero” de Gilles Lipovetsky. Vou dividir em algumas partes, senão o post fica enorme. Depois também tratarei outros autores com esse tema.

De acordo com o filósofo Gilles Lipovetsky, talvez quando a moda fosse inexistente, mas próxima do despertar, Na Europa Ocidental, a maior diferenciação na indumentária entre os sexos começou quando o amor romântico (a ideia da corte do homem para sua amada intocável) fortaleceu-se nas mentes dos indivíduos. Nessa época, entre os séculos IX e XV, a busca pelos prazeres do mundo e do saudosismo da juventude começou a habitar o inconsciente da sociedade, especialmente da nobreza. Encontrar razões exatas de como se iniciou essa mudança é difícil, porém, seria apenas uma continuidade da estilização dos hábitos de conforto que a nobreza gozava. No início da Idade Média é possível ver diferenças mais marcantes entre os trajes masculinos e femininos, mas talvez o comprimento da gonele (túnica medieval) e acessórios como chapéus e gorros, sejam o mais evidente dessa diferença. Com o passar dos séculos, as vestimentas tornam-se cada vez mais adornadas e elaboradas, fato que está de acordo com o que Lipovetsky afirma sobre o crescente culto ao prazer. E do culto ao prazer começa o que o autor chama de a “estética da sedução” que se iniciou por volta dos anos 1100.

Escultura de pastores trajando a gonele.

Escultura de pastores trajando a gonele. Ano de 1150.

Rei e Rainha com trajes longos. Ano de 1150.

Rei e Rainha com trajes longos. Ano de 1150.

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Estátuas do conde Eckhart e da condessa Uta, século XII.

"Anatomia" de Gui Pávia, início do século XIV. A túnica longa era usada tanto por homens e mulheres.

“Anatomia” de Gui Pávia, início do século XIV. A túnica longa era usada tanto por homens e mulheres.

O amor baseado no heroísmo cavalheiresco esteve presente por séculos, porém, por volta desta data, afirma Lipovetsky, esse amor passou a ser baseado em um heroísmo lírico e sentimental. O homem cultua a mulher e põe-se a seus pés; mostra-se submisso, exaltando a beleza e virtudes de sua amada. Uma estilização das maneiras e comportamentos para a conquista se mostra necessária, e a moda contribui para a realização desse – como chama o próprio autor – jogo. O gosto feminino por adornos e toalete existe, com registros, desde a Antiguidade e, com a elevação de seus atributos a níveis divinos e intocáveis devido ao lirismo de seus admiradores, esse gosto foi ainda mais reforçado, a fim de fortalecerem a ideia de mulheres de beleza ideal.

TROVADORISMO

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O amor cortês e cavalheirismo. Ano de 1335-40.

O pintor Edmund Blair Leighton (1853-1922) retratou muito a Idade Média e o trovadorismo.

O pintor Edmund Blair Leighton (1853-1922) retratou muito a Idade Média e o trovadorismo.

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A partir de então, as roupas se tornaram cada vez mais distintas entre os gêneros. Cada uma deveria valorizar e denotar com cada vez mais intensidade as diferenças que  existem entre homens e mulheres. Não só físicas, mas também simbólicas e ideais para a prática da sedução. Essa prática só pode ser realizada se for notável que os homens e mulheres não são iguais, pois um precisa chegar até o outro, já que o lirismo recorrente da época em questão traz a ideia de que ambos vivem em mundos diferentes. Para chamar a atenção do outro se faz necessário mudanças e cuidados com o vestuário e aparência. Dessa forma, a partir de 1350, segundo Lipovetsky, as estruturas do vestuário masculino e feminino mostram uma dessemelhança radical entre si.

Roupas femininas no início do século XV.

Roupas femininas no início do século XV.

Roupas masculinas no século XV.

Roupas masculinas no século XV.

Diferenças notáveis nas roupas femininas e masculinas no século XV.

Diferenças notáveis nas roupas femininas e masculinas no século XV.

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Com o passar dos séculos, as roupas masculinas e femininas continuaram se distinguindo, mesmo com as inúmeras mudanças que a moda trazia nelas. A estética da sedução permaneceu por muitos anos, com as devidas adaptações necessárias aos períodos recorrentes. A roupa masculina, entre os séculos XV e XVIII, foi sempre muito ornamentada, e a moda era muito importante para o vestuário desse gênero, algo que aparentemente mudou após a Revolução Francesa. Nesta fase da História, os excessos e ostentações deveriam  ser suprimidos, o que, obviamente, teve grande impacto na moda.

Diferença de trajes no começo do século XVI.

Diferença de trajes no começo do século XVI.

"As Crianças Graham", de William Hogarth, 1742.

“As Crianças Graham”, de William Hogarth, 1742.

"Sr. e Sra. Andrews", de Thomas Gainsborough, 1748.

“Sr. e Sra. Andrews”, de Thomas Gainsborough, 1748.

"As Despedidas", de Mreau le Jeune, 1777. Silhueta volumosa e exagerada feminina.

“As Despedidas”, de Mreau le Jeune, 1777. Silhueta volumosa e exagerada feminina.

Depois da “renúncia” aos exageros e enfeites que serviam para diferenciar ricos de pobres, o traje masculino sofreu mudanças até chegar ao que conhecemos como terno hoje: simples, prático, democrático e que se mantém atual por mais de um século. O que antes queria representar festas, riquezas e prazer, agora passa a significar trabalho, seriedade, economia e igualdade. A moda feminina também sofreu as devidas mudanças nesse período: o volume e as camadas de tecido diminuíram, a silhueta passou a ser mais reta e simples, e a cor da moda feminina para a primeira metade do século XIX era branca. Os vestidos ficaram tão simples em relação ao que outrora foram, que lembravam camisolas. Porém, até voltarem alguns excessos, bem ao contrário da moda masculina, que mantinha-se simples em relação à moda feminina e ao que tinha sido séculos atrás.

A calça dos operários franceses acaba sendo adotada como moda pela nobreza. 1792.

A calça dos operários franceses acaba sendo adotada como moda pela nobreza. 1792.

"A Família Schimmelpenninck", de Pierre-Paul Prud'hon, 1801.

“A Família Schimmelpenninck”, de Pierre-Paul Prud’hon, 1801.

O vestido feminino mais simples, com silhueta mais lânguida. 1802.

O vestido feminino mais simples, com silhueta mais lânguida. 1802.

Trajes masculinos para o dia, 1834.

Trajes masculinos para o dia, 1834.

Por volta da metade do século XIX, o vestido feminino voltou aos exageros enquanto o terno masculino permaneceu simples.

Por volta da metade do século XIX, o vestido feminino voltou aos exageros enquanto o terno masculino permaneceu simples.

Gravura de Charles Vernier, 1860.

Gravura de Charles Vernier, 1860.

Contraste entre os vestidos volumosos e coloridos das mulheres com os ternos masculinos de cores sóbrias.

Contraste entre os vestidos volumosos e coloridos das mulheres com os ternos masculinos de cores sóbrias.

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No final do século XIX e durante o século XX, período que Lipovetsky chama de “moda de 100 Anos”, fortalece-se a Alta Costura, porém esta é dedicada exclusivamente às mulheres. A moda passa a ser mais reconhecida como “coisa de mulher”, visto que apenas elas dirigiam-se a costureiros para adquirir novas roupas personalizadas aos seus gostos. Os vestidos podiam refletir os desejos das clientes pelas cores, detalhes da costura ou aviamentos, algo que não era permitido aos homens. Estes se limitavam ao terno escuro, sóbrio e formal. As mudanças relativas ao terno masculino sempre foram mais lentas e contidas: mudavam alguns cortes, cores e modelagem, mas a sua estrutura permanece até hoje.

As revistas de moda voltadas para mulheres fortaleceram a ideia de moda ser algo exclusivamente feminino. 1914.

As revistas de moda voltadas para mulheres fortaleceram a ideia de moda ser algo exclusivamente feminino. 1914.

Alta Costura em um ateliê em 1935.

Alta Costura em um ateliê em 1935.

(Esse texto é parte de uma resenha minha para um trabalho da disciplina “Sociedade e Cultura de Consumo” na ESPM)