Moda como Experiência Estética

Continuando com a discussão entre arte e moda, sabe-se que alguns profissionais e estudantes da área tratam a moda como arte, mesmo esta não fazendo parte das linguagens que a arte engloba. Por mais que a moda também tenha, muitas vezes, performances e fotografia, ela, em si, é um campo que, segundo os críticos, não faz parte das artes visuais, constituindo um sistema próprio que se descola do que se poderia chamar de arte, devido a particularidades que normalmente entram no campo mercadológico. Como o filósofo Lars Svendsen aponta, “a moda sempre quis ser amada pela arte, ao passo que esta foi mais ambivalente, por vezes abraçando a outra só para repeli-la de novo”.

Serge Poliakoff por Yves Saint Laurent

Serge Poliakoff por Yves Saint Laurent

Piet Mondrian por Yves Saint Laurent

Piet Mondrian por Yves Saint Laurent

Talvez o rótulo “arte” para a moda a fizesse ser levada mais a sério pelo público que a taxa diretamente de “supérflua” e até a ajudasse a ter críticos mais sérios. Os próprios amantes da moda que a julgam como arte, talvez a queiram associada a esse nome por ele carregar imponência, que está, normalmente, associada a conceitos filosóficos. Porém, como já foi mostrado aqui, a moda e a arte atualmente se manifestam de maneira igual por estarem inseridas no mesmo esquema capitalista que vivemos (o qual a moda não pode existir sem, aliás). A partir disso, gostaria de falar sobre a chamada “experiência estética”, um aspecto de grande importância que o espectador tem ao se deparar com uma obra. Diferentes teóricos abordam o assunto, mas utilizarei o viés de Kant em seu livro Crítica da Faculdade do Juízo (1790) de maneira bem sucinta, se possível.

Yayoi Kusama para Louis Vuitton

Yayoi Kusama para Louis Vuitton

Damien Hirst para Levi's Jeans

Damien Hirst para Levi’s Jeans

Em meio a análises sobre o belo, julgamento e gosto, Kant diz que uma experiência estética se dá com objetos artísticos ou não, mas a atitude estética deve ser pura e livre, e por isso considera certos aspectos: primeiramente, essa atitude deve consistir em um prazer desinteressado onde prazer seria o sentimento em relação ao objeto. Ou seja, não se deve pensar no fim que o objeto tem ao contemplá-lo, tampouco em possui-lo ou em seu preço. Segundo, essa atitude não pode ser cognitiva, ou seja, não deve ser conceituada de forma alguma, como, por exemplo, tentar identificar a que estilo artístico uma escultura pertence ou tentarmos descobrir porque as flores têm determinada coloração ao contemplarmo-las. E terceiro, a experiência estética não deve estar relacionada a um valor moral, o que quer dizer que ao contemplarmos uma pintura ou ouvirmos uma música, não devemos tentar encontrar uma mensagem nelas ou pautar nosso gosto em cima do valor moral da cena ou letra. Assim, a experiência estética se dá quando é totalmente livre e nossas emoções não dependem desses conceitos para existirem, o que a faz puramente contemplativa.

E o que isso tem a ver com a moda? As pessoas, em geral, conseguem ter mais e melhor essa atitude estética postulada por Kant com a moda do que com a arte moderna e conceitual que está dentro de bienais e museus. Isso porque a moda é mais popular e próxima às pessoas devido a variados fatores, sendo um dos mais óbvios, provavelmente, é o de estarmos em contato com ela todos os dias. Outro fator extremamente importante é o mercado, marketing e publicidade, mas não vou me aprofundar nesses assuntos especificamente, pois, além de muito extensos, também desviariam o foco do tema “experiência estética”. Mas, voltando, a arte hoje parece muito incompreensível para as pessoas em geral, e com isso me refiro a pessoas que estão fora do campo de estudo de artes visuais ou moda e design. Me refiro a toda massa de pessoas que não se envolvem com essas áreas, que normalmente apreciam imagens que digam respeito a si mesmas ou coisas próximas a elas, o que não consiste em instalações de luzes ou objetos abstratos em geral. No entanto, é consenso que a arte é algo que deve ser respeitado e esse tipo de arte normalmente está cercada de críticos, professores e pessoas com alto poder aquisitivo que veem as obras como um investimento.

Peter Coffin, Escada espiral, 2007

Peter Coffin, Escada espiral, 2007

Peter Coffin, Colby (detalhe), 2008

Peter Coffin, Colby (detalhe), 2008

Mostra Never Off de Massimo Uberti

Mostra Never Off de Massimo Uberti

Essas obras de arte possuem uma aura de importância que passam a impressão que se você não as compreende, o problema está em você por não ser inteligente ou sensível o suficiente. As pessoas acabam tentando buscar um significado nelas, pois a princípio não as acham belas nem para serem contempladas, principalmente se essa pessoa tem pouco contato com a arte, pois esses juízos de gosto e valor, por mais que sejam pessoais, podem ser aperfeiçoados com a prática. O filósofo John Dewey já trata desse afastamento da arte em relação ao grande público, em seu livro Arte Como Experiência (1958), porém trata de obras ainda mais antigas e consagradas como a Monalisa de Leonardo Da Vinci. A relevância e importância das obras de arte são tão enfatizadas (mas não tão bem ensinadas) que nos sentimos na obrigação de gostar e respeitá-las, sem termos coragem de exprimir um “não gostei” sem se passar por ou sentir-se um ignorante. Hoje, a arte conceitual normalmente exige uma preparação prévia para apreciação: É necessário ler manifestos ou textos sobre a vida do artista para compreendê-las, o que afasta mais ainda as pessoas da arte, pois esta não pode mais ser simplesmente contemplada sem interesses ou conhecimento sobre nada, como Kant afirma que seria a experiência estética. Ou seja, acabam não conseguindo ter essa experiência estética porque não adotam a atitude estética: ora procuram compreender a obra, ora buscam prazer nela. Mas também, no fim, nem esses dois últimos interesses encontram, o que resulta em nenhuma experiência sequer.

Damien Hirst, A impossibilidade física da morte na mente de alguém vivo, 1991

Damien Hirst, A impossibilidade física da morte na mente de alguém vivo, 1991

Jim Campbell, Plano inclinado, 2011.

Jim Campbell, Plano inclinado, 2011.

Já a moda se encontra em um lugar diferente diante da arte como experiência para a massa. A moda, tendo contato diário conosco, faz termos diferentes relações com ela, normalmente uma experiência física mesmo, que nos deixa mais à vontade a adotarmos uma atitude estética (mesmo sem sabermos) com ela. Como não existe o distanciamento entre as pessoas e a moda como existe na arte, as pessoas são mais propensas, a princípio, a julgá-la, mas depois também apenas a contemplá-la. O fato também de a moda não estar, a rigor, categorizada como arte, a traz para mais perto do público, pois não é algo “sagrado”, mas algo que está aí para ser julgado por todos. Por mais que estilistas realizem trabalhos que possam ser discutidos como arte, esse fenômeno é muito novo para a massa pensar sobre isso. O caráter utilitário das roupas já elimina o problema de tentar conceituá-las e entendê-las, como ocorre muitas vezes com obras artísticas: elas servem para vestir e têm de agradar quem as usa de alguma forma. Os eventos que passam por tapete vermelho são um bom exemplo de como as pessoas gostam de assistir simplesmente para julgar os looks sem a menor culpa: o que importa é sua própria opinião sobre a peça de roupa e como ela está naquele determinado corpo. As fotos de looks de tapete vermelho são muito mais difundidas e noticiadas do que uma exposição de arte na mídia, e isso ajuda a despertar o interesse sobre moda nas pessoas. Isso as faz sentirem-se próximas a esse fenômeno de maneira que sejam livres para julgar, pois, diferente da arte, a moda tem muito mais utilidade e fins, que além de vestir, devem, por exemplo, deixar quem a usa atraente.

Blake Lively veste Gucci Première em Cannes

Blake Lively veste Gucci Première em Cannes

Sofia Vergara veste Zac  Posen no Golden Globes 2014

Sofia Vergara veste Zac Posen no Golden Globes 2014

Emma Stone vestindo Thakoon no baile do MET é moderna, mas sem fugir demais do protocolo.

Emma Stone vestindo Thakoon no baile do MET é moderna, mas sem fugir demais do protocolo.

A moda “artística”, de vanguarda, conceitual de passarela não é exatamente, por exemplo, aclamada pelas massas em um tapete vermelho (vou seguir com esse exemplo) que exige novidade, mas não exatamente inovações de uso. Essas peças são confundidas com fantasias e figurinos, ou seja, não têm a finalidade que se pressupõe para uma atriz em um tapete vermelho, que é apresentar poder, feminilidade e glamour para o público fora da área. Esses looks vanguardistas são aclamados por especialistas da área, mas normalmente rechaçados pela maioria, pois esta tem o contato diário com a moda para usá-la da maneira que lhes foi ensinada tradicionalmente, e não com o fim de explorá-la ou questioná-la. É claro que conforme o interesse por moda (que seja para apenas ver looks do tapete vermelho) aumenta, é provável que o julgamento de valor e gosto seja cada vez mais crítico também, e como já foi dito, a moda de celebridades é bem divulgada e as pessoas podem se aperfeiçoar nela, diferentemente da arte que fica restrita a poucos.

 

LAdy Gaga veste Comme des Garçons, Fall 2012

LAdy Gaga veste Comme des Garçons, Fall 2012

Iggy Azalea veste John Galliano no MTV Movie Awards 2014

Iggy Azalea veste John Galliano no MTV Movie Awards 2014

Katy Perry veste Dior Couture no MTV Music Awards 2012

Katy Perry veste Dior Couture no MTV Music Awards 2012

Bjork veste Marjan Pejoski no Oscar 2001

Bjork veste Marjan Pejoski no Oscar 2001

Mas estou falando até agora sobre julgamento de gosto e finalidades que as pessoas procuram para as roupas, bem como os conceitos que envolvem o vestir firmados desde sempre. Tudo isso vai contra o que foi dito sobre a experiência estética, o assunto inicial que comecei a tratar, pois nenhum interesse ou tentativa de entendimento deve haver em uma atitude estética. Mas quero dizer que todo esse contato tão próximo com a moda, que faz as pessoas a julgarem livremente, quererem tê-la e sentirem-se nela, segue para o próximo estágio que seria a própria experiência estética. As pessoas acostumam-se de tal forma com a moda que julgá-la ou se interessar por ela, acabam sendo atitudes ultrapassadas. A temos todos os dias e não a tememos, como acontece com a arte: não sentimos medo de não entendê-la e até o fator talvez mais persistente em nós em relação à moda, que é o de querer tê-la, acaba também sendo superado, pois não sentimos dificuldades para nos relacionarmos com ela ao passo que cada um se sente mais livre para querê-la ou rejeitá-la, então tudo acaba fluindo de maneira mais livre. Dessa liberdade chegamos à experiência estética e conseguimos, sem nos darmos conta, contemplar a moda, seja em um desfile, seja no dia-a-dia. Ela não é um “ser estranho”, cuja existência tentamos apreender. Portanto, ao olharmos para determinada peça de roupa, é possível “esquecermos” qualquer interesse que ela possa nos afligir, pois ela está sempre lá, e assim, contemplamo-la de maneira pura, proporcionando-nos uma experiência estética.

Em resumo, quero enfatizar mais o que se pode apontar como, talvez, irônico: a arte contemporânea, de tão afastada do público hoje em dia, devido às suas particularidades como abstração e conceitos considerados complexos (e que muitas vezes só dizem respeito ao próprio artista) aliados ao renome que o título “arte” tem, proporciona menos a experiência estética do que outros fenômenos. Um deles seria a moda, que por ser sempre tão “banal”, tão à vista, tão próxima (mesmo a moda de luxo, pois sempre tem bastante exposição na mídia), consegue proporcionar a experiência estética, que é muito importante para o desenvolvimento da percepção e crítica sobre esse campo de estudo, que é a própria Estética.