Moda x Arte

Resolvi falar sobre um assunto já, talvez, batido, mas não necessariamente ultrapassado: moda x arte. Como muitas questões que envolvem arte não têm um consenso (e nem deveriam), podemos fazer novas análises sobre novos pontos de vista. A verdade é que é um assunto já há muito exercitado e sabe-se que a resposta que poderemos obter é apenas uma interpretação pessoal, então ainda fico em dúvida se deveria fazer esse post. Mas como li um artigo de um mestrado da já mencionada autora Diana Crane, acho válido colocar sua posição.

Por mais que a moda seja associada à arte diante de certas peças ou desfiles performáticos, a moda não é reconhecida como arte pela Academia, portanto, não chamamos certas peças de roupas ou desfiles de “obras”. Porém é comum o público ou profissionais como jornalistas, por exemplo, classificarem trabalhos de moda como arte, principalmente se forem esteticamente belos ou com caráter vanguardista. Ainda assim, a grosso modo, existe algo na moda que a faz ser vista como algo separada da arte, uma linha invisível e muito tênue que não nos deixa associá-la à arte, mesmo com coleções feitas com princípios e conceitos, por assim dizer, artísticos, bem como seus editorais em revistas especializadas.

Alexander McQueen AutumnWinter 1999

Alexander McQueen Autumn/Winter 1999. “Neve” na passarela.

Alexander McQueen SpringSummer 2005. A apresentação do desfile foi feita no formato de um jogo de xadrez, com o tabuleiro  projetado na passarela.

Alexander McQueen Spring/ Summer 2005. A apresentação do desfile foi feita no formato de um jogo de xadrez, com o tabuleiro projetado na passarela.

Passarela de Dolce & Gabbana O/I 2012. Um cenário teatral.

Passarela de Dolce & Gabbana O/I 2012. Um cenário teatral.

Editorial ‘Russian Dolls’  com Karlie Kloss. Fotografado por Tim Walker para Vogue UK, outubro 2010

Editorial ‘Russian Dolls’ com Karlie Kloss. Fotografado por Tim Walker para Vogue UK, outubro 2010

Editorial “A Private World” com Sunniva Stordahl. Fotografado por Tim Walker para Vogue Italia, novembro de 2008.

Editorial “A Private World” com Sunniva Stordahl. Fotografado por Tim Walker para Vogue Italia, novembro de 2008.

A moda tem muitos “poréns” que barram o seu entendimento pleno como arte. Pode-se dizer primeiramente que a moda, ao contrário da arte, tem o caráter de “ofício” fortemente arraigado. A arte, apesar de também poder ser um ofício, está envolta a um conceito romântico de que o artista é excêntrico e expressivo, fiel aos seus sentimentos e princípios, que estariam acima do sucesso financeiro. Sabe-se que os artistas mais bem sucedidos possuem assessores e agendas lotadas com eventos promocionais, mas não é exatamente essa a imagem essencial que existe do artista no senso comum. É claro que a Academia de Artes tem critérios mais embasados para se posicionar quanto ao que deve ser ou não classificado como arte, mas se falando em arte, como um conceito que muda de era em era, até onde consegue-se realmente embasar-se em algo concreto?

Muitos editoriais de moda sequer mostram roupas, mas apenas um estilo de vida. Kate Moss por Tim walker para Love nº09

Muitos editoriais de moda sequer mostram roupas, mas apenas um estilo de vida. Kate Moss por Tim walker para Love nº09

Como falado, a moda tem um reconhecimento de arte pelo público leigo, e isso vem desde o século XIX. É importante ressaltar que por mais que as pesquisas e estudos apontem que a moda começou a surgir no final da Idade Média, juntamente com o capitalismo (pois são o mesmo sistema), a sociedade europeia só passou a saber o que ela significava, entendê-la e entrar em seu sistema  totalmente no século XIX com a expansão urbana e industrialização dos meios de produção. No final do século XIX, o costureiro Charles Worth deu a imagem que temos de um estilista hoje, ou de um costureiro como nossas avós reconheciam: um gênio criador. Ele não é apenas um executor dos pedidos das clientes, ele diz o que o cliente deve usar. Worth se considerava um artista e instaurou a ideia de criadores de moda inspirados e “fora de seu tempo”. Isso pode ter ajudado aos jornalistas rotularem certos desfiles de “arte”, mas com certeza, a moda, nem para quem a chama de arte, é vista como uma arte que se pode colocar lado a lado da escultura, pintura ou instalações, ou seja, das Belas artes. Talvez possa ser mais reconhecida como arte aplicada.

Charles Worth (1895)

Charles Worth (1895)

Vestido de House of Worth, final dos anos 1880.

Vestido de House of Worth, final dos anos 1880.

Vestido de House of Worth, 1895-1896.

Vestido de House of Worth, 1895-1896.

Basicamente, Crane aponta que a moda não é, a rigor, encarada como arte pelo seu aspecto econômico fortemente arraigado ao seu sistema. Obras de arte, em geral, não transmitem esse aspecto, apesar de o terem – e serem bem caras. Porém, a autora coloca que uma das características da obra de arte, é que ela será arte independentemente de seu sucesso ou valor financeiro. Por exemplo, uma escultura será arte e não tem necessidade de cair no gosto das massas ou ter algum tipo de relevância para a sociedade para poder ser considerada arte. É pensar na arte como seu próprio fim. Não é o que ocorre com a moda, que tem caráter utilitário, mesmo quando são apresentados trajes não funcionais, que apenas representam um conceito ou transgressão. Na moda, pressupõe-se sucesso em vendas e movimentação de capital. Se determinada roupa não conseguir esse sucesso, é tida como um fracasso, algo que não existe no que entendemos por arte. Então, por esses detalhes que não são totalmente verdadeiros e rígidos, Crane mostra como uma das possibilidades da moda não ser considerada arte, mesmo quando tenta sê-la.

Após os anos 60, a moda tenta quebrar conceitos e barreiras com cada vez mais força nas passarelas, o que não quer dizer que isso se reflita posteriormente na moda das ruas, mas que corresponde à época plural em gostos, conceitos e ideias que vivenciamos. Principalmente nos anos 80, as passarelas presenciaram uma rebeldia cada vez maior nas roupas. Não era apenas a incorporação de um estilo anti-moda das ruas, como os punks dos anos 70 ao seu sistema; até mesmo as passarelas de Paris desconstruíam as roupas e conceitos bem firmados e estabelecidos.

Punks no final dos anos 70

Punks no final dos anos 70

Apropriação do punk pela Chanel.

Apropriação do punk pela Chanel.

Já mencionei em outro post o boom dos estilistas japoneses em Paris e como conseguiram questionar esses conceitos na época, de forma que não seguiam as tendências da década juntamente com outras marcas que traziam estampas totalmente coloridas e peças justas ao corpo. Ao contrário, eram peças escuras, amplas e largas, soltas e sem acabamento, que davam nova forma ao corpo ao mesmo tempo em que se adaptavam a ele. O conceito de feminilidade é contestado, bem como os gêneros.  Isso se afasta muito da ideia de moda da época e que é cultivada até hoje. Como já mencionei, para alguém que não conheça Yohji Yamamoto, não é possível distinguir a que década pertence cada uma de suas coleções com muita precisão. Seu trabalho é muito mais autoral, individual e conceitual, assim como o trabalho de artistas contemporâneos. Ainda assim, ele se apresenta dentro da moda. Mas como é moda se nem ao menos segue tendências da mesma?

Yohji Yamamoto 1983

Yohji Yamamoto 1983

Comme des Garçons 1980s

Comme des Garçons 1980s

É certo que a moda consegue incorporar até seus “inimigos” para dentro de si, mas, ainda assim, desfiles como Alexander McQueen, Gareth Pugh ou John Galliano, têm uma posição muito mais artística, subjetiva e transcendental do que de moda, que seria diretamente ligado às vendas, funcionalidade e sucesso econômico. Não se trata apenas de uma alegoria, um exagero, mas que representa uma tendência de moda, como a Prada faz. É uma posição individual da própria marca, que está pensando fora do que ocorre na moda e se preocupa em passar seus conceitos individuais independentemente dela.

Holograma de Kate Moss no desfile de Alexander McQueen O/ I 2006

Holograma de Kate Moss no desfile de Alexander McQueen O/ I 2006

Raquel Zimmermann em Alexander McQueen O/ I 2006.

Raquel Zimmermann em Alexander McQueen O/ I 2006.

Jessica Stam em John Galliano O/I 2009.

Jessica Stam em John Galliano O/I 2009.

Marcelina Sowa em John Galliano O/ I 2007. A teatralidade também é muito presente em diversos desfiles.

Marcelina Sowa em John Galliano O/ I 2007. A teatralidade também é muito presente em diversos desfiles.

Christian Dior Haute Couture O/ I 2007 por John Galliano.

Christian Dior Haute Couture O/ I 2007 por John Galliano.

Gareth Pugh P/ V 2007

Gareth Pugh P/ V 2007

Gareth Pugh O/ I 2011

Gareth Pugh O/ I 2011

Essas roupas vanguardistas têm saído das passarelas e adentrado museus com cada vez mais frequência, o que ressalta seu caráter artístico, mas também servem como uma grande ferramenta de marketing. Esse processo de transformar um objeto antes banal em arte, Diana Crane chama em seu artigo de “artificação”. Alguns profissionais de moda se mostram contra a artificação da moda, como a jornalista britânica Suzy Menkes. O entendimento desses desfiles por parte do público em geral como arte é grande, principalmente quando percebem que muitas roupas não têm apenas a função de vestir, mas que querem propor outras que vão além do deslumbramento estético, este que já foi por quase toda História algo básico à arte.

É inegável que esse mesmo público, apesar de conceber a moda como arte, não a coloca ao lado das Belas Artes. Colecionadores de arte, em geral, não têm peças de roupas vanguardistas em seu acervo, mas a moda tenta se aproximar da arte há muito tempo, tanto com Charles Worth, tanto nas criações surrealistas de Elsa Schiaparelli com Salvador Dali. Muitos estilistas montam lojas em que mais se assemelham a galerias de arte do que a lojas de roupa. No entanto, ao contrário de Charles Worth, os criadores atuais dispensam o título de “artista”, dizendo que são apenas estilistas.

Vestido Esqueleto po Elza Shiparelli, 1939.

Vestido Esqueleto por Elsa Schiaparelli, 1939.

Chapéu-sapato por Elza Schiaparelli, 1937.

Chapéu-sapato por Elsa Schiaparelli, 1937.

A verdade é que independentemente das transgressões e novos conceitos que algumas roupas propõem, o aspecto econômico associado à moda permanece, pois apesar da peça transgressora não vender, o show que os desfiles proporcionam chamam a atenção do público e servem como publicidade para a marca. Isso se reflete em vendas de peças mais comuns e funcionais que são vendidas nas lojas, mesmo que nas passarelas sejam apresentadas coisas completamente diferentes.

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Revolução Silenciosa através do Vestuário e o Estilo “Alternativo” do Século XIX

Este texto é uma resenha de um capítulo do livro “A Moda e seu papel social” de Diana Crane, sendo o capítulo “Vestuário feminino como resistência não-verbal”.

Muito do vestuário diário feminino se deve às mulheres de classe média e operária no século XIX, sendo que essas não correspondiam ao ideal feminino vitoriano. A moda vigente da época, como aponta Diana Crane, exercia controle social, como ainda o faz. Porém, olhando para o século XIX, conseguimos perceber com mais clareza os códigos do vestuário que davam a cada um seu papel social.

A autora comenta em uma passagem do texto que Foucalt dizia que o discurso vitoriano sobre a sexualidade constituía uma “tecnologia” para exercer poder sobre o indivíduo e a família, mas ela demonstra que os discursos marginais sobrevivem e também exercem sua influência, paralelamente com o discurso dominante. Toda época tem suas discussões sobre o vestuário, entre os que aceitam as normas e os que querem que estas tomem uma nova direção. É interessante que, como aponta Crane, as mudanças ocorrem mais por fatores externos aos proponentes, como economia, empregabilidade, tecnologia, do que pelos seus discursos.

No século XIX, as roupas foram muito importantes para a comunicação simbólica, transmitindo o papel e posição social de quem as vestia. O ócio-aristocrático era considerado o ideal para mulheres casadas, sendo privadas de qualquer atividade da esfera pública.

As roupas da moda consideradas mais sofisticadas e elegantes saíam de Paris e os vestidos eram normalmente compostos por diversas peças, todas com muito tecido e muito ornamentados, o que evidencia a dificuldade de poder exercer qualquer função dentro deles. Isso simboliza e ilustra melhor a separação existente entre homens e mulheres, sendo que assim mulheres não se ocupam das tarefas masculinas e são dependentes de seus maridos ou parentes do sexo masculino.

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Neste capítulo do livro, Diana mostra um estilo de vestuário do período vitoriano que é praticamente inexplorado no estudo da história da indumentária, muito provavelmente por ser marginal e pouco expressivo, mas que com certeza, indiretamente influenciou os rumos da moda feminina. Esse estilo a autora chama de “alternativo”, o qual incorporava algumas peças do vestuário masculino como gravatas, chapéus, paletós, coletes e camisas, ora juntos, ora separados, mas sempre combinando com peças femininas da moda. As calças não entraram nesse estilo, pois seria uma transgressão muito grande, mais do que essas mulheres estavam dispostas a causar. No livro “French Feminism in the Nineteenth Century”, de Claire Moses, mostra que mulheres consideradas desobedientes sociais eram retratadas de calças por cartunistas em revistas e jornais.

Cartoon "A Discórdia" de 1857. Casal disputa para decidir quem deve usar calças.

Cartoon “A Discórdia” de 1857. Casal disputa para decidir quem deve usar calças.

Não há certezas acerca este “estilo alternativo”; se havia alguma intenção por trás – mesmo inconsciente -, algum tipo de protesto ou comunicação através de seus símbolos, mas sabe-se que a maioria das mulheres que o adotavam eram mulheres que trabalhavam fora, foras do foco principal da moda.

Como foi dito, a moda dominante vinha da França, mas no estilo alternativo é notável a influência inglesa, pois a moda inglesa é reconhecida por ser menos sofisticada em ornamentos; suas roupas têm caráter mais funcional do que estético, se comparamos com as francesas. No estilo alternativo, a Inglaterra é reconhecida pelo uso do paletó ajustado que compunha um conjunto com a saia, o que indica que na Inglaterra a imagem da mulher era mais alternativa que a da França.

Mulher de classe média em traje "alternativo" (Inglaterra), 1864.

Mulher de classe média em traje “alternativo” (Inglaterra), 1864.

As peças utilizadas para compor o estilo alternativo alterava o traje de forma muitas vezes sutil, sendo um dos acessórios mais utilizados, a gravata. A gravata no universo masculino fornecia informações a quem a vestia, fosse “militar, esportivo, educacional ou relativo ao clube a que pertencia”, segundo Sarah Gibbings, autora de “The Tie: Trendings and Traditions”. Mulheres representadas como independentes na época, eram muitas vezes representadas com gravatas, mas a gravata influenciou o uso de fitas de veludo preto no pescoço, por volta da década de 1870. Essas fitas lembravam bastante as gravatas usadas por homens no mesmo período e no final do século XIX, eram usadas por membros de todas as classes sociais, inclusive mulheres de classes mais altas, além de que também eram usadas em uniformes e roupas de trabalho. Madeleine Ginsburg identifica a gravata como peça principal do “uniforme feminista” da década de 1890, mas muitas vezes era contrabalanceada com ênfase em outras peças e atributos femininos em um mesmo traje, de modo que não chocasse tanto.

Alunas de uma faculdade para mulheres no Estados Unidos, usando gravatas em 1876.

Alunas de uma faculdade para mulheres no Estados Unidos, usando gravatas em 1876.

Trabalhadoras de fiação de algodão com gravatas de fita nos Estados Unidos em 1879.

Trabalhadoras de fiação de algodão com gravatas de fita nos Estados Unidos em 1879.

Outra peça que entrou no guarda-roupa feminino no mesmo século foi o chapéu, acessório-símbolo poderoso do universo masculino. No começo do século, a cartola passou a ser utilizada por mulheres em seus trajes de montaria e no decorrer do século outros modelos foram incorporados, principalmente para esportes. O chapéu-coco ficou muito popular na década de 1870 e, em 1880, o chapéu de palha ganhou destaque para os homens e logo passou a ser usado também pelas mulheres. Madeleine Ginsburg mostra que ficaram tão populares entre ambos os sexos que poderia ser considerado um acessório unissex. Esse chapéu pode ser classificado como um símbolo das mulheres jovens que trabalhavam fora, pois contrastava muito com os outros chapéus femininos do mesmo período que eram ornamentados com rendas, flores, véus, laços, aves entre outras coisas.

O paletó combinado com saia foi chamado de “símbolo da mulher emancipada no século XIX” e era usado mais no campo e no litoral, pois contrastava bastante com os vestidos volumosos e ornamentados do decorrer do século. A Inglaterra era o país que ditava a moda masculina e que deu origem a estilos femininos mais masculinizados dentro da moda. No entanto, muitas peças inspiradas e trazidas do guarda-roupa masculino não eram totalmente “respeitáveis”, mas com o tempo e insistência da moda e seus usos, passaram a ser vistos com cada vez mais naturalidade. Renée Davray-Piekolek, historiadora da indumentária francesa, chamou o conjunto de paletó e saia como “único traje feminino não lançado na França”. Era confeccionado principalmente por alfaiates e não por costureiras. Na França, sinalizava um novo estilo de comportamento feminino, pois a mulher era mais livre para se locomover nesse traje e esse tipo de mulher mais “livre” era chamada de “l’anglaise”, pois esse traje era visto como essencialmente inglês, tanto na confecção, quanto na origem. Quando as francesas adotaram esse traje definitivamente, o chamaram de tailleur (feito sob medida em francês). Nos Estados Unidos o conjunto podia já ser comprado pronto em lojas prêt-a-porter (ou ready to wear) e influenciou muitos vestidos da época, principalmente nos tecidos.

Mulher de classe média vestida no estilo "alternativo". Inglaterra, 1893.

Mulher de classe média vestida no estilo “alternativo”. Inglaterra, 1893.

A última peça do traje da mulher independente surgiu nos Estados Unidos, na década de 1870, como uma camisa masculina adaptada, o chemisier, algumas vezes ornamentado com gravata comum ou gravata-borboleta.

Mesmo no final do século, o traje alternativo não era tão corriqueiro, era selecionado para determinadas ocasiões e lugares, devido à sua natureza mais provocativa. Usar todos os elementos do estilo alternativo, como gravata, colete, chemisier, paletó e chapéu de palha demonstravam uma posição de manifesto mais rígida. Mas além de ser um manifesto, era também uma moda, e Diana Crane se pergunta em seu texto como os elementos masculinos eram percebidos pelas mulheres que o adotaram. Como esses itens não perderam sua conotação masculina e eram cada vez mais adotados pelas mulheres, independentemente se eram de classe alta ou classe operária, pode-se dizer que estão ligados a uma afirmação simbólica da independência feminina que começou aos poucos, sem imposição direta, de modo que naturalmente levasse o comportamento feminino para novos caminhos, antes não permitidos.

Mulheres com trajes da moda e outras com trajes do estilo "alternativo" juntas. Inglaterra, 1897.

Mulheres com trajes da moda e outras com trajes do estilo “alternativo” juntas. Inglaterra, 1897.

Podemos perceber através desses fatos como elementos visuais carregam significados que influenciam o pensamento de uma sociedade, mesmo sendo esses elementos discretos, que podem até passar como “sem importância”. Imagens carregam significados, mesmo que inconscientes, e o vestuário pode ser considerado um dos elementos que mais transmite símbolos e valores de uma sociedade desde que o homem passou a se organizar nela. A mudança no estilo de vida feminino teve como uma de suas origens a moda, que por sua vez foi consequência de outras mudanças prévias no estilo de vida das mulheres e assim por diante.  A moda ajudou como reforço visual, pois com um distanciamento menor da aparência entre homens e mulheres, a noção de que ambos podem habitar os mesmos universos se torna mais natural e plausível. Mas é necessário lembrar que apenas as mulheres adentraram o universo masculino, não ocorreu uma “mistura” de mundos. Se hoje ela pode transitar nesses dois mundos (pelo menos no âmbito da moda e do trabalho), a sociedade ainda não permite que o homem faça o mesmo, sendo que se formos discutir as razões para isso, sairia já da proposta do blog. De qualquer forma, com os elementos masculinos levados de maneira discreta e sutil ao guarda-roupa feminino, pôde ocorrer uma revolução eficiente nos costumes, mas, claro, de maneira mais lenta, pois foi uma revolução silenciosa nesse aspecto. Assim, leva-se décadas para a mudança que busca de igualdade de fato ocorrer, que até hoje é almejada. Porém, se fosse feita de maneira objetiva e impositiva, causaria mais repulsa à maioria, como realmente acontecia com mulheres que protestavam por exemplo, pelo direito ao voto, que era retratadas de maneira depreciativa pela mídia.