Yohji Yamamoto: O Velho-Novo Japão

O estilista japonês Yohji Yamamoto diz que suas roupas são “atemporais” e sem uma característica nacional típica definida, apesar dos críticos continuarem a chamá-las de “japonesas”. É difícil mesmo rotular essas roupas, já que nelas se encontram características que pode-se chamar de “opostas”, mas que formam um design único. Essa roupa passa a impressão de velha e nova ao mesmo tempo, tradicional e vanguardista e com algo que sim, nos remete ao Japão, mas talvez seja preciso um olhar mais atento para se dar conta.

Yohji Yamamoto Outono/ Inverno 2010

Yohji Yamamoto - Primavera/ Verão 2012

Yohji Yamamoto – Primavera/ Verão 2012

Yohji Yamamoto - Outono/ Inverno 2012

Yohji Yamamoto – Outono/ Inverno 2012

Yohji Yamamoto - Outono/ Inverno 2009

Yohji Yamamoto – Outono/ Inverno 2009

A roupa tradicional japonesa se mostra bem diferente do que tem sido usado no ocidente desde os primórdios da idade média: enquanto a roupa européia se ajusta e marca o corpo, as roupas japonesas dão mais espaço entre tecido e pele.

Traje do período Heian (794 - 1185)

Traje do período Heian (794 – 1185)

Yohji sintetiza as transformações sofridas pelo Japão desde os primórdios da sua história política e social. Apesar de tantas mudanças, o país ainda apresenta um isolamento em termos de preservação da família e religião tradicional. Principalmente tendo como influência a roupa que vem desde a restauração Meiji passando por nossa era contemporânea, o estilista também vai além e mostra o futuro em suas peças: seu estilo é único e sua roupa sempre está à frente de seu tempo. Tempo que talvez não exista, o que confirma as palavras do próprio quando diz que suas peças são atemporais. Mesmo novas, elas trazem uma sensação de uso prévio e história, porém também são futuristas, pois não se encaixam em nosso tempo e em nenhum tempo passado.

A faixa que prende o kosode foi alargada no começo do século XIX e cobria boa parte do tronco.

Kitagawa Utamaro, “Alta Sociedade”, final do século XVIII.

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Kitagawa Utamaro, “Cena em cima e ebaixo da ponte”, final do século XVIII.

Yohji Yamamoto - Primavera/ Verão 1984

Yohji Yamamoto – Primavera/ Verão 1984

Vestido 1979

Vestido 1979

Dessa forma, sua marca vai além da moda e não segue tendências, se é que é possível. A prova disso é que a mesma roupa de 1981 não se mostra antiga perto de uma de 2013.  Um leigo não saberia dizer qual veio antes e qual veio depois se não conhecer o trabalho do estilista. Apesar de sua roupa ser tão avançada, a influência japonesa é evidente quando se estuda a indumentária do país: como já foi dito, o espaço entre o tecido e a pele de quem veste, as formas soltas dadas às peças, além de técnicas de tingimento tipicamente japonesas como yuzen e shibori. Muitas peças e seus looks com várias camadas de tecido também remetem ao Japão feudal.

Casaco, começo dos anos 80.

Casaco, começo dos anos 80.

Yohji Yamamoto - Primavera/ Verão 2013

Yohji Yamamoto – Primavera/ Verão 2013

Saia com técnica de tingimento/ estampa yuzen.

Saia com técnica de tingimento/ estampa yuzen.

Yohji Yamamoto - Primavera/ Verão 2013

Yohji Yamamoto – Primavera/ Verão 2013

Quando se conhece melhor as peças de Yamamoto, também fica evidente seu interesse pelos materiais, maior do que o da própria forma dada à roupa; o primeiro deve dizer como o segundo deve ser. Como o próprio estilista disse: “O tecido é tudo. Ocasionalmente digo aos meus modelistas: Apenas ouça o material. O que ele vai dizer? Apenas espere. Provavelmente o material te ensinará algo.”.

Yohji Yamamoto - Outono/ Inverno 1983

Yohji Yamamoto – Outono/ Inverno 1983

Yohji Yamamoto - Outono/ Inverno 1997.

Yohji Yamamoto – Outono/ Inverno 1997.

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Yohji Yamamoto – Outono/ Inverno 1995

Carla Sozzani, uma editora de moda italiana, descreve o trabalho de Yamamoto quando visto pela primeira vez em Paris em 1981 como um “choque emocional” e que “suas roupas eram como uma revolução”. Sua estética era completamente oposta às das passarelas da época, onde se via apenas ombros largos e marcados, maquiagem forte e marcante e salto alto. Conseguimos ver através das roupas de Yamamoto o conservadorismo e modernidade do Japão, dois conceitos opostos, mas que funcionam muito bem quando bem trabalhados.

A silhueta, as camadas de tecido, materiais e técnicas de tingimento que nos remetem ao Japão tradicional, trazem também uma severidade e melancolia as quais podem ser associadas, segundo o estilista, à Tóquio destruída depois de bombardeada durante a  Segunda Guerra, onde ele nasceu e afirma que talvez essa seja sua raiz.

Yohji Yamamoto - 1983

Yohji Yamamoto – 1983

Yohji Yamamoto - Outono/ Inverno 1999

Yohji Yamamoto – Outono/ Inverno 1999

A estética revolucionária que Yohji passou a apresentar em seus desfiles para o mundo, desde 1981, era desagradável, mas trouxe um mistério e uma nova sensualidade, muito diferente do que se via na época. Uma mulher andrógina, de camisas e calças largas, mas que transmitia sua sensualidade por estar tão confortável em si mesma. Yamamoto disse: “Acredito que ajustar as roupas de forma apertada em um corpo feminino é para o divertimento do homem…não me parece nobre. Também não é educado mostrar muito às outras pessoas.”.

Yohji Yamamoto - Outono/ Inverno 1986

Yohji Yamamoto – Outono/ Inverno 1986

Yohji Yamamoto - Primavera/ Verão 1997

Yohji Yamamoto – Primavera/ Verão 1997

Yohji Yamamoto Backstage - Primavera/ Verão 2008

Yohji Yamamoto Backstage – Primavera/ Verão 2008

Yohji Yamamoto - Primavera/ Verão 1997

Yohji Yamamoto – Primavera/ Verão 1997

Além disso, a estética do imperfeito começou a criar força na moda nesse período. Não era mais apenas o imperfeito dos jovens que queriam se rebelar; era um imperfeito chique, formas e materiais puros, sem interferências excessivas, e que resultava em uma silhueta complexa e sofisticada. Nos anos 80 ainda era um visual suficientemente estranho e melancólico para causar uma aceitação maior; o humor de suas peças era muito diferente do da década. Porém, como foi brevemente falado aqui, os anos 90 se apropriaram dessa estética do imperfeito que passou a ser vinculada em revistas como Vogue e, assim, a tornou bela e desejável para as massas. Ainda assim, havia a própria característica andrógina e destruída, mas ao mesmo tempo elegante que se manteve fiel a Yohji. Mesmo essa estética tendo sido engolida pela moda, a marca Yohji Yamamoto sempre esteve além de seu tempo.

Yohji Yamamoto - Primavera/ Verão 1983

Yohji Yamamoto – Primavera/ Verão 1983

A professora de Sociologia da New York’s Fashion Institute of Technology, Yuniya Kawamura, disse: “Yamamoto sugeriu um novo estilo e redefiniu a estética que pode ser encontrado por todas as suas coleções através dos anos. Agora, se aproximando de sua quarta década em Paris, Yamamoto raramente de dispersa de sua visão monástica.”.

Yohji Yamamoto - 1984 e 1986

Yohji Yamamoto – 1984 e 1986

Yohji Yamamoto - Primavera/ Verão 2013

Yohji Yamamoto – Primavera/ Verão 2013

Yohji Yamamoto - Primavera/ Verão 2012

Yohji Yamamoto – Primavera/ Verão 2012

Toda a vanguarda e tradicionalismo de Yamamoto se relaciona com a tradicional cultura japonesa de valorizar e firmar suas raízes com a sede de avanço para o futuro. A curadora de uma exposição sobre Yohji Yamamoto, Ligaya Salazar,  disse: “sua insistência na imperfeição se relaciona diretamente a uma das chaves ideais da estética japonesa, o wabi-sabi, que descreve a aceitação da imperfeição, impermanência e a incompletude de um objeto.”.

Cena do filme "Dolls" de 2002, com direção de Takeshi Kitano, o qual Yamamoto desenvolveu o figurino.

Cena do filme “Dolls” de 2002, com direção de Takeshi Kitano, o qual Yamamoto desenvolveu o figurino.

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Masculino X Feminino por Lipovetsky Parte II

Essa é uma continuação da resenha “Gilles Lipovetsky: Masculino x Feminino”. Para ler a primeira parte, clique aqui.

No final do século XIX e durante o século XX, período que Lipovetsky chama de “Moda de Cem Anos”, fortalece-se a Alta Costura, porém esta é dedicada exclusivamente às mulheres. A moda passa a ser reconhecida cada vez mais como “coisa de mulher”, principalmente após a Revolução Francesa., visto que apenas elas dirigiam-se a costureiros para adquirir novas roupas e personalizadas aos seus gostos. Os vestidos podiam refletir os desejos das clientes pelas cores, detalhes de costura ou aviamentos, algo muito mais restrito aos homens. Estes se limitavam ao terno escuro, sóbrio e formal. As mudanças relativas ao terno masculino sempre foram mais lentas e contidas nos dois últimos séculos: mudavam alguns cortes, cores e modelagem, mas a sua estrutura de lá pra cá permanece até hoje.

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Assim, o século XX, que sofreu drásticas mudanças comportamentais em diversas áreas do conhecimento, naturalmente foi o período que “engrandeceu a moda”, utilizando as próprias palavras do autor. E, ironicamente, foi o período em que grande parte de suas décadas, a moda ficou mais proibida aos homens. Ao passo que as mulheres se divertiam cada vez mais com as várias mudanças e liberdade de criação que a moda vinha proporcionando, paralelamente ela recebia o desprezo masculino, que se mostrava mais avesso às novidades. O sentimento masculino, ainda que inconsciente,  em relação ao terno, é que este é o traje “correto” e por isso não precisa de mais experimentos e mudanças, ao passo que considera a moda como “bobagem” e fútil e a restringe apenas às mulheres.

No universo feminino, a moda chega a ganhar reconhecimento artístico, fornecendo status de artistas aos costureiros: estes deveriam criar trajes que arrancassem suspiros, inspirassem sonhos e despertassem desejo imediato nas mulheres, enquanto que um alfaiate tinha apenas como ofício produzir ternos de qualidade, sem o glamour e atenção da mídia.

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Balenciaga na Harper's Bazaar, dezembro de 1950

Balenciaga na Harper’s Bazaar, dezembro de 1950

Dior - 1950's

Dior – 1950’s

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Como aponta o autor, a moda da modernidade rompeu as diferenças que havia entre ricos e pobres, mas acentuou ainda mais a distinção entre o vestuário masculino e feminino. A um, era permitido sonhar, criar e desejar; ao outro, a norma é a razão, formalidade e funcionalidade. Lipovetsky trata como se se dos homens foi retirado o direito à vaidade e frivolidade, às mulheres perdurou esse direito, talvez porque pela cultura de seduzir e parecer bela seja tão arraigada, que não pôde ser quebrada com novos valores e ideais.

A tecnologia e o fortalecimento das máquinas e indústrias tiraram aos poucos as mulheres do mundo da alta Costura. A produção em massa não pode mais fazer peças tão diferenciadas e exclusivas e, com o fortalecimento do prêt-a-porter, ocorre uma revolução cultural e um novo código jovem, que busca igualar classes sociais, raças e claro, os gêneros. Um forte apelo para a celebração do “eu” é trazido pelos jovens e com a mídia e publicidade, o narcisismo passa a crescer moderadamente entre os homens. A moda jovem é extremamente individualista; é necessário arriscar-se, transparecer seus gostos pessoais e individuais e não se parecer com a média. Chocar e/ou desagradar passa a ser uma consequência e também um fim, e fazer confusão entre os sexos (homens de cabelo comprido nos anos 70, por exemplo) foi um meio de atingir esse objetivo. Com uma sociedade cada vez mais valorizando o novo, a individualidade e a personalização, o homem saiu – pelo menos um pouco – do terno e da moda igualitária.

Joan Jett, Debbie Harry, David Johansen e Joey Ramone em 1978.

Joan Jett, Debbie Harry, David Johansen e Joey Ramone em 1978.

1950's

1950’s

Após a Moda de Cem Anos, onde a moda masculina e feminina habitavam mundos completamente distintos e eram ditados por regras inversas umas às outras, além da contribuição dos jovens, o sportswear foi, segundo o autor, um grande elemento para unir esses dois universos. O corpo humano passa a ser exaltado, mas de uma forma muito diferente do que era feito há quatro séculos, que também mostrava sua preocupação com o corpo pela moda. Se no século XV mostravam essa atenção através de espartilhos, anquinhas e codpieces,  no século XX, a celebração do corpo era deixá-lo natural, saudável e confortável. Sair nas ruas com peças que antes podia-se apenas usar em casa e que eram reconhecidas como roupas de baixo, passou a ser comum. A camiseta t-shirt passou a ser um uniforme primeiramente jovem e depois para todas as idades. Através da moda sportswear, os gêneros acabaram juntando-se em um único traje, pois ambos os corpo, feminino e masculino, sentiam necessidade de estarem à vontade também fora de suas casas, no lazer do fim de semana. A t-shirt e o jeans revolucionaram a moda de ambos os gêneros, mas ainda assim, como mostra Lipovetsky, o vestuário masculino tem duas faces completamente opostas: o sportswear para o lazer e o terno para o trabalho, traje que o conservadorismo masculino não abandonou apesar das revoluções ocorridas em seu guarda-roupa. 

Calvin Klein Jeans - Outono 2010

Calvin Klein Jeans – Outono 2010

Propaganda do jeans Lee  nos anos 60.

Propaganda do jeans Lee nos anos 60.

(Esse texto é parte de uma resenha minha para um trabalho da disciplina “Sociedade e Cultura de Consumo” na ESPM)

O Estranho nos anos 90 e no Século XIX

O livro “O Estranho na Moda”, de Silvana Holzmeister é focado principalmente nos anos 90 e se arrisca a fazer uma comparação entre essa década com o século XIX. A princípio ambos parecem em nada se assemelhar, mas ela levantou pontos que achei bem interessantes e depois resolvi pesquisar mais também.

Silvana primeiramente fala sobre o humor e o inconsciente coletivo dos anos 90, que claro, se refletiu na moda (acho interessante como só conseguimos falar qual é a “cara” de uma década depois que já nos afastamos alguns anos dela). Como já é afirmado e aceito, uma moda nega a outra, e a negação da vez era às belas modelos de sorriso perfeito, proporções de rosto equilibradas e com um corpo magro, mas curvilíneo e saudável. Também ao luxo, ao glamour, e ao dispêndio exagerado.  Veja bem, a anti-moda dos punks e de outras subculturas, além de estilistas japoneses nos anos 80 com suas roupas desconstruídas e rasgadas já existiam bem antes dos anos 90, porém essa estética decadente nunca havia sido tão celebrada e sim, glamourizada pelas revistas e por marcas de luxo. A estética ideal então passou a ser um corpo magro, com aparência doentia, rostos com olhares vagos e sem expressão, ambientes decadentes, solitários e perigosos.

Peças destruídas e sem acabamento apareceram primeiro em marcas de vanguarda, e só mais tarde marcas mais tradicionais começaram a adotar a estética.

Peças destruídas e sem acabamento apareceram primeiro em marcas de vanguarda, e só mais tarde marcas mais tradicionais começaram a adotar a estética.

Kate Moss por Corinne Day no começo dos anos 90.

E que paralelos podem ser traçados com o século XIX? Bem, primeiro podemos dizer que o final de ambos os séculos, XIX e XX, criaram uma atmosfera pessimista na sociedade, por alguns motivos tão diferentes e outros tão parecidos. Os dois períodos estavam vivendo a cultura de consumo de modo intenso, mas cada um seu modo, de acordo com suas possibilidades. No final do século XIX a sociedade já podia usufruir bem do que trouxe a Revolução Industrial e a tecnologia passou a avançar com cada vez mais velocidade e com mais máquinas. E mesmo no começo do século, após a Revolução Francesa, onde o pensamento vigente era conter os excessos, isso logo mudou com a burguesia fortalecida, que agora seria a nova nobreza e poderia gozar dos mesmos luxos. Porém, diferentemente de seu século anterior, no século XIX o “objeto de luxo” eram as próprias mulheres, que ostentavam o poder de sua família em suas roupas, cabelo, maquiagem e adornos.  A mulher nessa época realmente não tinha muitos deveres na sociedade, além do de ser bela para ser vista e exibida como um troféu por seus maridos.

A dessemelhança gritante entre o vestuário masculino e feminino já denota a função social de cada um.

A dessemelhança gritante entre o vestuário masculino e feminino já denota a função social de cada um.

Já a mulher dos anos 90 tinha o mundo aos seus pés para consumir e se lambuzar. Tinha à disposição tantas opções de moda e diversos tratamentos estéticos e médicos para poder se transformar nas lindas mulheres das revistas; se plastificarem e serem felizes. A comparação que Silvana trouxe em seu livro para essas mulheres de diferentes períodos foram as bonecas, que é a quê essas mulheres foram comparadas em cada época por alguns escritores como Emile Zola ou Walter Benjamin. As mulheres se torturam e penam para obter um visual que na realidade é inumano, como podemos notar nas que usavam seus espartilhos apertadíssimos junto com anquinhas que davam uma silhueta de S, vistos há dois séculos. As bonecas chegaram ao ápice de seu requinte em sua fabricação também no século XIX, na França, sendo um objeto de grande valor e estima da sociedade.

A silhueta em S das damas do século XIX

A silhueta em S das damas do século XIX

Outro ponto de comparação que gostei do livro, é que Silvana aponta que em ambos os períodos o medo da relação homem x máquina se aflora e contribui para o medo do homem ser dominado pelas próprias criaturas. No século XIX a tecnologia era puramente mecânica, mas avançava com velocidade suficiente para assustar e mostrar que sozinha pode fazer o de 50 homens em uma hora. Vemos manifestações desse medo na literatura, como “Frankenstein” de Mary Shelley, ainda no começo do século. Nos anos 90 essa fase já havia sido superada, pois agora a era digital estava para começar: novas ameaças, mesmos medos. Os anos 90 transmitem a mesma atmosfera dos 1800s tardios. É sombria e inanimada, triste sem consciência do porquê. Lembro-me que era difícil dizer o que os anos 90 representaram, pois todos sentiam que não representaram nada, não havia mais para onde irmos mais. Os jovens não tinham mais causas e ideais, foram bem criados, não sofreram como seus pais. Quando ficavam bravos ou tristes, apenas se trancavam em seu quarto com suas músicas. Também procuravam se distrair com drogas, mas estas agora não eram mais algo para libertar mentes e vozes e servirem também como protesto. As drogas passaram a ser parte de um momento para ignorar o outro.

Ewan McGregor como Mark Renton, um jovem viciado em heroína no filme “Trainspotting”, de 1996.

Jamie King, modelo a qual foi descoberta ser usuária de heroína aos 16 anos, com um look característico anos 90.Jamie King, modelo a qual foi descoberta ser usuária de heroína aos 16 anos, com um look característico anos 90.

O mundo dos negócios e capitalista foi exaltado nos anos 80, mas aparentemente o consumo excessivo trouxe desorientação, desilusão e tédio, como apontam os filósofos Gilles Lipovetsky em “A Felicidade Paradoxal” e Lars Svendsen em “A Filosofia do Tédio”. Como as pessoas não conseguiram encontrar nele a felicidade que procuravam, se tornaram apenas uma modificada e bela casca vazia, o que é muito bem representado pela fotografia de moda dos anos 90, com modelos esquálidas, mas belas, e apáticas, em um cenário confuso e sem sentido. E a moda, cumprindo seu papel, transformou esse look bizarro e repugnante em desejável. Mas claro que já procuravam isso em seu íntimo e descobriram um interesse no horror e, assim, que feiura também poderia ser bela. Aqui, eu traço outro paralelo com o século XIX, que nesse período estava em alta na literatura os romances góticos, fantásticos, vampirescos e de terror. E essas histórias traziam em suas narrativas e descrições um mundo sombrio, sentimentos ora reprimidos, ora exacerbados. Doenças, alucinações, visões de outro mundo, amargura com a vida, mas principalmente, personagens que conseguiam seduzir seus leitores com seus devaneios, angústias e anseios. Talvez por serem tão humanos e não conseguirem demonstrar isso. E assim, a estética do horror passou a ser também bela e desejável, pois é misteriosa e profunda e continuou sendo propagada ao longo do século XX, principalmente através do cinema. Assim, o look heroin chic dos anos 90 também mostrou sua beleza em meio a palidez, magreza, ar sombrio, olhar perdido junto a cigarros e bebidas. Ao mesmo tempo em que algo te repele também te causa fascínio e curiosidade e te leva também em direção a ele.

A morte foi muitas vezes retratada como algo sublime e idealizado na arte do século XIX, como em "Ophelia" de John Everett Millais em 1851.

A morte foi muitas vezes retratada como algo sublime e idealizado na arte do século XIX, como em “Ophelia” de John Everett Millais em 1851.

Cenas do irreal e inconsciente, como a personagem "Carmilla", de conto de mesmo nome de Joseph Sheridan Le Fanu, escrito em 1981.

Cenas do irreal e inconsciente, como a personagem “Carmilla”, de conto de mesmo nome de Joseph Sheridan Le Fanu, escrito em 1981.

A moda anos 90...

A moda anos 90…

E o "terror" anos 90.

E o “terror” anos 90.

Masculino X Feminino por Lipovetsky Parte I

Fiz uma resenha para uma disciplina do curso de pós-graduação na ESPM sobre a questão dos gêneros masculino e feminino de acordo com o livro “O Império do Efêmero” de Gilles Lipovetsky. Vou dividir em algumas partes, senão o post fica enorme. Depois também tratarei outros autores com esse tema.

De acordo com o filósofo Gilles Lipovetsky, talvez quando a moda fosse inexistente, mas próxima do despertar, Na Europa Ocidental, a maior diferenciação na indumentária entre os sexos começou quando o amor romântico (a ideia da corte do homem para sua amada intocável) fortaleceu-se nas mentes dos indivíduos. Nessa época, entre os séculos IX e XV, a busca pelos prazeres do mundo e do saudosismo da juventude começou a habitar o inconsciente da sociedade, especialmente da nobreza. Encontrar razões exatas de como se iniciou essa mudança é difícil, porém, seria apenas uma continuidade da estilização dos hábitos de conforto que a nobreza gozava. No início da Idade Média é possível ver diferenças mais marcantes entre os trajes masculinos e femininos, mas talvez o comprimento da gonele (túnica medieval) e acessórios como chapéus e gorros, sejam o mais evidente dessa diferença. Com o passar dos séculos, as vestimentas tornam-se cada vez mais adornadas e elaboradas, fato que está de acordo com o que Lipovetsky afirma sobre o crescente culto ao prazer. E do culto ao prazer começa o que o autor chama de a “estética da sedução” que se iniciou por volta dos anos 1100.

Escultura de pastores trajando a gonele.

Escultura de pastores trajando a gonele. Ano de 1150.

Rei e Rainha com trajes longos. Ano de 1150.

Rei e Rainha com trajes longos. Ano de 1150.

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Estátuas do conde Eckhart e da condessa Uta, século XII.

"Anatomia" de Gui Pávia, início do século XIV. A túnica longa era usada tanto por homens e mulheres.

“Anatomia” de Gui Pávia, início do século XIV. A túnica longa era usada tanto por homens e mulheres.

O amor baseado no heroísmo cavalheiresco esteve presente por séculos, porém, por volta desta data, afirma Lipovetsky, esse amor passou a ser baseado em um heroísmo lírico e sentimental. O homem cultua a mulher e põe-se a seus pés; mostra-se submisso, exaltando a beleza e virtudes de sua amada. Uma estilização das maneiras e comportamentos para a conquista se mostra necessária, e a moda contribui para a realização desse – como chama o próprio autor – jogo. O gosto feminino por adornos e toalete existe, com registros, desde a Antiguidade e, com a elevação de seus atributos a níveis divinos e intocáveis devido ao lirismo de seus admiradores, esse gosto foi ainda mais reforçado, a fim de fortalecerem a ideia de mulheres de beleza ideal.

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O amor cortês e cavalheirismo. Ano de 1335-40.

O pintor Edmund Blair Leighton (1853-1922) retratou muito a Idade Média e o trovadorismo.

O pintor Edmund Blair Leighton (1853-1922) retratou muito a Idade Média e o trovadorismo.

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A partir de então, as roupas se tornaram cada vez mais distintas entre os gêneros. Cada uma deveria valorizar e denotar com cada vez mais intensidade as diferenças que  existem entre homens e mulheres. Não só físicas, mas também simbólicas e ideais para a prática da sedução. Essa prática só pode ser realizada se for notável que os homens e mulheres não são iguais, pois um precisa chegar até o outro, já que o lirismo recorrente da época em questão traz a ideia de que ambos vivem em mundos diferentes. Para chamar a atenção do outro se faz necessário mudanças e cuidados com o vestuário e aparência. Dessa forma, a partir de 1350, segundo Lipovetsky, as estruturas do vestuário masculino e feminino mostram uma dessemelhança radical entre si.

Roupas femininas no início do século XV.

Roupas femininas no início do século XV.

Roupas masculinas no século XV.

Roupas masculinas no século XV.

Diferenças notáveis nas roupas femininas e masculinas no século XV.

Diferenças notáveis nas roupas femininas e masculinas no século XV.

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Com o passar dos séculos, as roupas masculinas e femininas continuaram se distinguindo, mesmo com as inúmeras mudanças que a moda trazia nelas. A estética da sedução permaneceu por muitos anos, com as devidas adaptações necessárias aos períodos recorrentes. A roupa masculina, entre os séculos XV e XVIII, foi sempre muito ornamentada, e a moda era muito importante para o vestuário desse gênero, algo que aparentemente mudou após a Revolução Francesa. Nesta fase da História, os excessos e ostentações deveriam  ser suprimidos, o que, obviamente, teve grande impacto na moda.

Diferença de trajes no começo do século XVI.

Diferença de trajes no começo do século XVI.

"As Crianças Graham", de William Hogarth, 1742.

“As Crianças Graham”, de William Hogarth, 1742.

"Sr. e Sra. Andrews", de Thomas Gainsborough, 1748.

“Sr. e Sra. Andrews”, de Thomas Gainsborough, 1748.

"As Despedidas", de Mreau le Jeune, 1777. Silhueta volumosa e exagerada feminina.

“As Despedidas”, de Mreau le Jeune, 1777. Silhueta volumosa e exagerada feminina.

Depois da “renúncia” aos exageros e enfeites que serviam para diferenciar ricos de pobres, o traje masculino sofreu mudanças até chegar ao que conhecemos como terno hoje: simples, prático, democrático e que se mantém atual por mais de um século. O que antes queria representar festas, riquezas e prazer, agora passa a significar trabalho, seriedade, economia e igualdade. A moda feminina também sofreu as devidas mudanças nesse período: o volume e as camadas de tecido diminuíram, a silhueta passou a ser mais reta e simples, e a cor da moda feminina para a primeira metade do século XIX era branca. Os vestidos ficaram tão simples em relação ao que outrora foram, que lembravam camisolas. Porém, até voltarem alguns excessos, bem ao contrário da moda masculina, que mantinha-se simples em relação à moda feminina e ao que tinha sido séculos atrás.

A calça dos operários franceses acaba sendo adotada como moda pela nobreza. 1792.

A calça dos operários franceses acaba sendo adotada como moda pela nobreza. 1792.

"A Família Schimmelpenninck", de Pierre-Paul Prud'hon, 1801.

“A Família Schimmelpenninck”, de Pierre-Paul Prud’hon, 1801.

O vestido feminino mais simples, com silhueta mais lânguida. 1802.

O vestido feminino mais simples, com silhueta mais lânguida. 1802.

Trajes masculinos para o dia, 1834.

Trajes masculinos para o dia, 1834.

Por volta da metade do século XIX, o vestido feminino voltou aos exageros enquanto o terno masculino permaneceu simples.

Por volta da metade do século XIX, o vestido feminino voltou aos exageros enquanto o terno masculino permaneceu simples.

Gravura de Charles Vernier, 1860.

Gravura de Charles Vernier, 1860.

Contraste entre os vestidos volumosos e coloridos das mulheres com os ternos masculinos de cores sóbrias.

Contraste entre os vestidos volumosos e coloridos das mulheres com os ternos masculinos de cores sóbrias.

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No final do século XIX e durante o século XX, período que Lipovetsky chama de “moda de 100 Anos”, fortalece-se a Alta Costura, porém esta é dedicada exclusivamente às mulheres. A moda passa a ser mais reconhecida como “coisa de mulher”, visto que apenas elas dirigiam-se a costureiros para adquirir novas roupas personalizadas aos seus gostos. Os vestidos podiam refletir os desejos das clientes pelas cores, detalhes da costura ou aviamentos, algo que não era permitido aos homens. Estes se limitavam ao terno escuro, sóbrio e formal. As mudanças relativas ao terno masculino sempre foram mais lentas e contidas: mudavam alguns cortes, cores e modelagem, mas a sua estrutura permanece até hoje.

As revistas de moda voltadas para mulheres fortaleceram a ideia de moda ser algo exclusivamente feminino. 1914.

As revistas de moda voltadas para mulheres fortaleceram a ideia de moda ser algo exclusivamente feminino. 1914.

Alta Costura em um ateliê em 1935.

Alta Costura em um ateliê em 1935.

(Esse texto é parte de uma resenha minha para um trabalho da disciplina “Sociedade e Cultura de Consumo” na ESPM)

Roupa de Homem, Roupa de Mulher

Mulheres do Paleolítico superior vestindo saias de pele. 8000 a.C.

Mulheres do Paleolítico superior vestindo saias de pele. 8000 a.C.

Por todas as fases pelas quais a humanidade passou até agora, as roupas que nos vestiram sempre diferenciaram os gêneros, independente do momento histórico ou sociedade. É claro que nem todos os trajes diferenciaram homens e mulheres pela forma que conhecemos hoje aqui no ocidente, que é pela saia par elas e calça para eles. Na China e no Antigo Oriente Próximo há registros de mulheres também vestindo calças, mas sempre existiram ocasiões específicas e tradicionais em que os trajes necessariamente diferenciavam os sexos.

“Odalisca” por Eugéne Delacroix

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Uma princesa otomana por Frederick A. Bridgeman

"Dama com Falcão". Índia, 1750.

“Dama com Falcão”. Índia, 1750.

Ainda quando o fenômeno de moda não acontecia, as diferenciações ocorriam com mais ênfase nos detalhes. Seja no comprimento da túnica ou no penteado, pode-se notar que a diferenciação não é feita apenas por gosto, mas aparentemente por uma necessidade que a sociedade sente em fazê-la. Isso independe se essa sociedade é patriarcal ou não. Por mais que possamos creditar à cultura como causa para os hábitos e forma de se comportar de uma sociedade, ainda parece não ser uma resposta suficientemente esclarecedora sobre um comportamento que se repetiu e se repete há milênios em diferentes civilizações. Ao analisarmos peças de roupas de povos antigos como egípcios, gregos e romanos, a diferença se dá apenas em detalhes se comparamos com séculos posteriores. Comprimento de túnica e acessórios são os principais diferenciadores de gêneros pela indumentária das sociedades pré-históricas e antigas.

Esculturas romana representando homens e mulheres e seus diferentes tipos de drapejamento para cada sexo.

Esculturas romana representando homens e mulheres e seus diferentes tipos de drapejamento para cada sexo.

A partir dessa análise, podemos constatar que diferenciar gênero por meio do vestuário sempre foi necessário em todas as sociedades, pelo menos a partir de quando o homem começou a organizar e delegar tarefas para cada membro, além de ter ferramentas para poder realizar essa diferenciação nas peças de vestuário da época. A questão principal seria pensarmos as razões pelas quais essa necessidade sempre existiu e perdura até hoje. Mesmo com a democratização da calça jeans e camiseta branca para ambos os sexos no século XX, ocasiões especiais exigem um traje específico para cada sexo, como em festas formais, por exemplo. A questão aí então parece se ampliar para os traços psicológicos do homo sapiens, que talvez tenha uma necessidade de catalogar, registrar e marcar o que é diferente. Também há as nuances de nosso subconsciente que traduz nossas necessidades e vontades mais primitivas e íntimas em símbolos e rituais, o que também se transfere para o vestuário. É provável que só conseguiremos obter uma resposta se olharmos dentro da psique humana e não apenas para a história do vestuário em si, porém alguns pesquisadores e estudiosos trazem boas análises sobre os gêneros definidos em roupas sem necessariamente entrar na Psicologia.

Posteriormente farei algumas resenhas tentando abordar esse tema na visão desses pesquisadores e depois ver se rola um comparativo 🙂