Porque a Moda Existe

Quando se começa a estudar as origens da moda, lê-se que ela teve origem no período do Renascimento em um sistema que basicamente sai da nobreza e posteriormente espalha-se para a nova burguesia que a copia, à fim de se assemelhar aos nobres. E quando isso ocorre, estes já estão com uma nova moda para si e assim segue por séculos. Esse sistema, que o filósofo Lars Svendsen chama de “gotejamento”, permanece presente até a primeira metade do século XX, mas claro, com cada vez menos força.  Mas apesar da teoria do gotejamento ser verdadeira, não podemos pensar que ela é única razão para a moda existir e se mover, principalmente nos dias atuais, onde esse sistema nem sequer funciona mais. Seria a moda, mesmo há 500 anos, sempre um desejo de diferenciação das classes altas e cópia pelas classes mais baixas ou também foi apenas uma expressão da vontade de mudança, alinhando-se ao capitalismo que começava a surgir?

Francisco I da França, início do século XVI.

Francisco I da França, início do século XVI.

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Primeiramente, uma coisa não exclui a outra, pois com o despertar do desejo de mudanças aliado ao zeitgeist da época, existia a vontade de diferenciação por parte dos nobres e de imitação da burguesia, mas podemos dizer que esta veio posteriormente. Obviamente isso se dava de maneira muito lenta se compararmos com o sistema da moda hoje, pois até o século XIX o conhecimento e preocupação com a moda era inacessível para a classe trabalhadora, que só começou a ter mais acesso a ela devido a forte industrialização dos bens de consumo e assim, tornou roupas aparentemente complexas mais acessíveis e baratas. Isso não fez que as distinções de classes fossem apagadas, mas sim, que todas as classes agora pudessem interagir com a moda, fazendo com que a classe operária corresse mais atrás da moda das classes altas, intensificando o consumo de bens pelo seu valor simbólico, como ocorre até hoje. Como aponta Svendsen: “O desejo por itens de consumo simbolicamente poderosos torna-se então um mecanismo auto estimulador que é ao mesmo tempo causa e consequência de desigualdade social.”.

Aí podemos ver bem a teoria do gotejamento em ação, onde a inovação se dá nas camadas economicamente superiores e depois se espalha para as mais baixas, deixando, assim, estas sempre um passo atrás. Já no século XVIII é possível ver teóricos falando sobre esse fenômeno, como Adam Smith em A teoria dos sentimentos morais (1759):

“É em razão de nossa disposição para admirar, e consequentemente imitar, os ricos e os notáveis que lhes é possível estabelecer, ou conduzir, o que chamamos de moda. A roupa que vestem é a roupa em moda; a linguagem que usam em sua conversa é o estilo em moda; o porte e as maneiras que exibem são o comportamento em moda. Até seus vícios e desatinos estão em moda a maior parte dos homens orgulha-se de imitá-los e assemelhar-se a eles nas próprias qualidades que os desonram e desgraçam.”

E Kant em Antropologia de um ponto de vista pragmático (1770):

“É uma inclinação natural do homem comparar seu comportamento com o de alguém mais importante (a criança se compara com os adultos, o humilde com o aristocrata) para imitar seus modos. Uma lei de tal imitação, que praticamos para não parecer menos importante que outros, especialmente quando não pretendemos obter nenhum lucro com isso, é chamada moda. Ela é portanto da ordem da vaidade, porque não há em sua intenção nenhum valor interno; ao mesmo tempo, é também da ordem da insensatez, porque por força da moda temos ainda uma compulsão  a nos submeter servilmente ao mero exemplo que muitos na sociedade projetam sobre nós.”

Esse tipo de pensamento sobre a moda sobrevive até nossos dias, mesmo com ainda mudanças significativas terem ocorrido na sociedade. Podemos dizer que hoje esse sistema está longe de ser o funcionamento real da moda, visto que ela está tão viciada em si mesma e que de 50 anos para cá, a moda das ruas tem influenciado mais as tendências de moda e comportamento. Ainda assim, a diferenciação continua ocorrendo, pois não é possível haver o sistema da moda em uma sociedade se na mesma não houver um conceito forte de individualidade, onde que o impulso social seja maior que o individual. Vivemos em uma era totalmente individualista, que se fortaleceu assim de acordo com o crescimento do capitalismo, mas por isso mesmo, a diferenciação não será mais apenas o pobre querendo parecer ser rico. No século XX, grupos oprimidos se fortaleceram justamente por afirmarem sua diferença, ao invés de quererem parecer-se com o grupo dominante, como a classe operária, movimentos negros e homossexuais. Hoje a moda das classes mais altas consome o vestuário que surge das classes mais baixas e marginalizadas cada vez mais.

Grupo GLBT, anos 70.

Grupo GLBT, anos 70.

Grupo GLBT, anos 70.

Grupo GLBT, anos 70.

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Foto por Jamel Shabazz.

Foto por Jamel Shabazz.

Foto por Jamel Shabazz.

Foto por Jamel Shabazz.

O filósofo Herbert Spencer previa justamente o contrário, pois dizia que a moda tenderia a acabar com a democratização da sociedade, pois não haveria mais a necessidade de diferenciação. Porém quanto mais se destruiu a hierarquia social, mais foi feito o uso da moda como diferenciação, mas aí seria principalmente para a diferenciação do próprio indivíduo e não de uma classe inteira.  Como aponta Svendsen: “(…) temos um espaço social em que é possível fazer distinções, e essas distinções podem certamente resultar em capital cultural e social – mas esse capital não pode ser incorporado numa hierarquia social objetiva.”.

Apesar da teoria do gotejamento ser a explicação mais difundida sobre o surgimento da moda até hoje, ela é também plenamente contestável, pois pode realmente ter sido uma consequência de outros fatores, mas não exatamente o principal motivo. O sistema capitalista, que surgiu junto com a moda, naturalmente deixa a sociedade menos estática, pois é preciso que o capital (que engloba tudo) circular para que o sistema funcione. Mesmo que esse sistema estivesse em seus primórdios, o espírito da época estava lá, levando à necessidade de mudanças ao pensamento coletivo. O sociólogo Herbert Blumer deixa clara essa ideia:

“O mecanismo da moda aparece não em resposta a uma necessidade de diferenciação e emulação, mas em resposta a uma necessidade de estar na moda, de estar em dia com o que é bem visto, de expressar novos gostos que estão emergindo num mundo em mudança.” Essa necessidade de mudança é melhor exemplificada como maior à necessidade de diferenciação de classes quando notamos que nos últimos 50 anos a moda não se difundiu de cima para baixo, como já mencionado.

Apesar de hoje a moda aparentar ser mais democrática, nem tudo anda é permitido pela sociedade. Essa impressão ocorre, pois há uma pluralidade muito grande de estilos e normas coexistindo, sendo que até as roupas mais casuais ou as inseridas dentro de grupo ou movimento de rua (que dizem exaltar o máximo da criatividade e individualidade, seguindo o pensamento de nossa época) passíveis de regras.

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