Revolução Silenciosa através do Vestuário e o Estilo “Alternativo” do Século XIX

Este texto é uma resenha de um capítulo do livro “A Moda e seu papel social” de Diana Crane, sendo o capítulo “Vestuário feminino como resistência não-verbal”.

Muito do vestuário diário feminino se deve às mulheres de classe média e operária no século XIX, sendo que essas não correspondiam ao ideal feminino vitoriano. A moda vigente da época, como aponta Diana Crane, exercia controle social, como ainda o faz. Porém, olhando para o século XIX, conseguimos perceber com mais clareza os códigos do vestuário que davam a cada um seu papel social.

A autora comenta em uma passagem do texto que Foucalt dizia que o discurso vitoriano sobre a sexualidade constituía uma “tecnologia” para exercer poder sobre o indivíduo e a família, mas ela demonstra que os discursos marginais sobrevivem e também exercem sua influência, paralelamente com o discurso dominante. Toda época tem suas discussões sobre o vestuário, entre os que aceitam as normas e os que querem que estas tomem uma nova direção. É interessante que, como aponta Crane, as mudanças ocorrem mais por fatores externos aos proponentes, como economia, empregabilidade, tecnologia, do que pelos seus discursos.

No século XIX, as roupas foram muito importantes para a comunicação simbólica, transmitindo o papel e posição social de quem as vestia. O ócio-aristocrático era considerado o ideal para mulheres casadas, sendo privadas de qualquer atividade da esfera pública.

As roupas da moda consideradas mais sofisticadas e elegantes saíam de Paris e os vestidos eram normalmente compostos por diversas peças, todas com muito tecido e muito ornamentados, o que evidencia a dificuldade de poder exercer qualquer função dentro deles. Isso simboliza e ilustra melhor a separação existente entre homens e mulheres, sendo que assim mulheres não se ocupam das tarefas masculinas e são dependentes de seus maridos ou parentes do sexo masculino.

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Neste capítulo do livro, Diana mostra um estilo de vestuário do período vitoriano que é praticamente inexplorado no estudo da história da indumentária, muito provavelmente por ser marginal e pouco expressivo, mas que com certeza, indiretamente influenciou os rumos da moda feminina. Esse estilo a autora chama de “alternativo”, o qual incorporava algumas peças do vestuário masculino como gravatas, chapéus, paletós, coletes e camisas, ora juntos, ora separados, mas sempre combinando com peças femininas da moda. As calças não entraram nesse estilo, pois seria uma transgressão muito grande, mais do que essas mulheres estavam dispostas a causar. No livro “French Feminism in the Nineteenth Century”, de Claire Moses, mostra que mulheres consideradas desobedientes sociais eram retratadas de calças por cartunistas em revistas e jornais.

Cartoon "A Discórdia" de 1857. Casal disputa para decidir quem deve usar calças.

Cartoon “A Discórdia” de 1857. Casal disputa para decidir quem deve usar calças.

Não há certezas acerca este “estilo alternativo”; se havia alguma intenção por trás – mesmo inconsciente -, algum tipo de protesto ou comunicação através de seus símbolos, mas sabe-se que a maioria das mulheres que o adotavam eram mulheres que trabalhavam fora, foras do foco principal da moda.

Como foi dito, a moda dominante vinha da França, mas no estilo alternativo é notável a influência inglesa, pois a moda inglesa é reconhecida por ser menos sofisticada em ornamentos; suas roupas têm caráter mais funcional do que estético, se comparamos com as francesas. No estilo alternativo, a Inglaterra é reconhecida pelo uso do paletó ajustado que compunha um conjunto com a saia, o que indica que na Inglaterra a imagem da mulher era mais alternativa que a da França.

Mulher de classe média em traje "alternativo" (Inglaterra), 1864.

Mulher de classe média em traje “alternativo” (Inglaterra), 1864.

As peças utilizadas para compor o estilo alternativo alterava o traje de forma muitas vezes sutil, sendo um dos acessórios mais utilizados, a gravata. A gravata no universo masculino fornecia informações a quem a vestia, fosse “militar, esportivo, educacional ou relativo ao clube a que pertencia”, segundo Sarah Gibbings, autora de “The Tie: Trendings and Traditions”. Mulheres representadas como independentes na época, eram muitas vezes representadas com gravatas, mas a gravata influenciou o uso de fitas de veludo preto no pescoço, por volta da década de 1870. Essas fitas lembravam bastante as gravatas usadas por homens no mesmo período e no final do século XIX, eram usadas por membros de todas as classes sociais, inclusive mulheres de classes mais altas, além de que também eram usadas em uniformes e roupas de trabalho. Madeleine Ginsburg identifica a gravata como peça principal do “uniforme feminista” da década de 1890, mas muitas vezes era contrabalanceada com ênfase em outras peças e atributos femininos em um mesmo traje, de modo que não chocasse tanto.

Alunas de uma faculdade para mulheres no Estados Unidos, usando gravatas em 1876.

Alunas de uma faculdade para mulheres no Estados Unidos, usando gravatas em 1876.

Trabalhadoras de fiação de algodão com gravatas de fita nos Estados Unidos em 1879.

Trabalhadoras de fiação de algodão com gravatas de fita nos Estados Unidos em 1879.

Outra peça que entrou no guarda-roupa feminino no mesmo século foi o chapéu, acessório-símbolo poderoso do universo masculino. No começo do século, a cartola passou a ser utilizada por mulheres em seus trajes de montaria e no decorrer do século outros modelos foram incorporados, principalmente para esportes. O chapéu-coco ficou muito popular na década de 1870 e, em 1880, o chapéu de palha ganhou destaque para os homens e logo passou a ser usado também pelas mulheres. Madeleine Ginsburg mostra que ficaram tão populares entre ambos os sexos que poderia ser considerado um acessório unissex. Esse chapéu pode ser classificado como um símbolo das mulheres jovens que trabalhavam fora, pois contrastava muito com os outros chapéus femininos do mesmo período que eram ornamentados com rendas, flores, véus, laços, aves entre outras coisas.

O paletó combinado com saia foi chamado de “símbolo da mulher emancipada no século XIX” e era usado mais no campo e no litoral, pois contrastava bastante com os vestidos volumosos e ornamentados do decorrer do século. A Inglaterra era o país que ditava a moda masculina e que deu origem a estilos femininos mais masculinizados dentro da moda. No entanto, muitas peças inspiradas e trazidas do guarda-roupa masculino não eram totalmente “respeitáveis”, mas com o tempo e insistência da moda e seus usos, passaram a ser vistos com cada vez mais naturalidade. Renée Davray-Piekolek, historiadora da indumentária francesa, chamou o conjunto de paletó e saia como “único traje feminino não lançado na França”. Era confeccionado principalmente por alfaiates e não por costureiras. Na França, sinalizava um novo estilo de comportamento feminino, pois a mulher era mais livre para se locomover nesse traje e esse tipo de mulher mais “livre” era chamada de “l’anglaise”, pois esse traje era visto como essencialmente inglês, tanto na confecção, quanto na origem. Quando as francesas adotaram esse traje definitivamente, o chamaram de tailleur (feito sob medida em francês). Nos Estados Unidos o conjunto podia já ser comprado pronto em lojas prêt-a-porter (ou ready to wear) e influenciou muitos vestidos da época, principalmente nos tecidos.

Mulher de classe média vestida no estilo "alternativo". Inglaterra, 1893.

Mulher de classe média vestida no estilo “alternativo”. Inglaterra, 1893.

A última peça do traje da mulher independente surgiu nos Estados Unidos, na década de 1870, como uma camisa masculina adaptada, o chemisier, algumas vezes ornamentado com gravata comum ou gravata-borboleta.

Mesmo no final do século, o traje alternativo não era tão corriqueiro, era selecionado para determinadas ocasiões e lugares, devido à sua natureza mais provocativa. Usar todos os elementos do estilo alternativo, como gravata, colete, chemisier, paletó e chapéu de palha demonstravam uma posição de manifesto mais rígida. Mas além de ser um manifesto, era também uma moda, e Diana Crane se pergunta em seu texto como os elementos masculinos eram percebidos pelas mulheres que o adotaram. Como esses itens não perderam sua conotação masculina e eram cada vez mais adotados pelas mulheres, independentemente se eram de classe alta ou classe operária, pode-se dizer que estão ligados a uma afirmação simbólica da independência feminina que começou aos poucos, sem imposição direta, de modo que naturalmente levasse o comportamento feminino para novos caminhos, antes não permitidos.

Mulheres com trajes da moda e outras com trajes do estilo "alternativo" juntas. Inglaterra, 1897.

Mulheres com trajes da moda e outras com trajes do estilo “alternativo” juntas. Inglaterra, 1897.

Podemos perceber através desses fatos como elementos visuais carregam significados que influenciam o pensamento de uma sociedade, mesmo sendo esses elementos discretos, que podem até passar como “sem importância”. Imagens carregam significados, mesmo que inconscientes, e o vestuário pode ser considerado um dos elementos que mais transmite símbolos e valores de uma sociedade desde que o homem passou a se organizar nela. A mudança no estilo de vida feminino teve como uma de suas origens a moda, que por sua vez foi consequência de outras mudanças prévias no estilo de vida das mulheres e assim por diante.  A moda ajudou como reforço visual, pois com um distanciamento menor da aparência entre homens e mulheres, a noção de que ambos podem habitar os mesmos universos se torna mais natural e plausível. Mas é necessário lembrar que apenas as mulheres adentraram o universo masculino, não ocorreu uma “mistura” de mundos. Se hoje ela pode transitar nesses dois mundos (pelo menos no âmbito da moda e do trabalho), a sociedade ainda não permite que o homem faça o mesmo, sendo que se formos discutir as razões para isso, sairia já da proposta do blog. De qualquer forma, com os elementos masculinos levados de maneira discreta e sutil ao guarda-roupa feminino, pôde ocorrer uma revolução eficiente nos costumes, mas, claro, de maneira mais lenta, pois foi uma revolução silenciosa nesse aspecto. Assim, leva-se décadas para a mudança que busca de igualdade de fato ocorrer, que até hoje é almejada. Porém, se fosse feita de maneira objetiva e impositiva, causaria mais repulsa à maioria, como realmente acontecia com mulheres que protestavam por exemplo, pelo direito ao voto, que era retratadas de maneira depreciativa pela mídia.

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