Gilles Lipovetsky: Masculino x Feminino Parte III

Essa é uma continuação da resenha “Gilles Lipovetsky: Masculino x Feminino”. Para ler a primeira e a segunda parte, clique aqui e aqui.

Pode-se dizer que o fator que mais fez a moda masculina e feminina se assemelharem cada vez mais foi a própria feminina, pois esta sempre esteve em contante mudança acelerada. Em 100 anos a moda feminina mudou mais no século XX do que já antes aconteceu e, se comparamos com as mudanças ocorridas paralelamente no vestuário masculino durante o século, a diferença é gritante.

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Alguns fatores políticos e sociais ocorridos no século XX influenciaram as mulheres a procurarem roupas mais parecidas com as dos homens, mas também a própria necessidade de mudar que a moda proporciona. Não foi apenas uma busca das mulheres para as roupas masculinas, mas a valorização do corpo e conforto fez as roupas de lazer se assemelharem cada vez mais, surgindo assim o sportswear.

Propaganda de roupas sportswear de 1946

Propaganda de roupas sportswear de 1946

Propaganda Adidas 1982

Propaganda Adidas 1982

A introdução do smoking masculino para as mulheres como um traje chique para eventos formais se deu através do estilista Yvens Saint Laurent, mas a ingressão das mulheres ao mercado de trabalho (no período da Segunda Guerra) e escritórios fora de suas casas as fez ter a necessidade de utilização do terno, tanto para se igualarem e exigirem o mesmo respeito  dado aos homens, tanto, talvez, pela sua funcionalidade.

Propaganda da década de 1940.

Propaganda da década de 1940.

Touche Eclat YSL Tuxedo image

Smoking de Yvens Saint Laurent

Porém, como já foi mencionado, ao longo de  todos esses anos as mulheres se enfeitavam para seduzir e, aparentemente, apesar do desejo de igualdade, as mulheres quiseram continuar sendo vistas como mulheres: fortes, porém femininas. Muitas usam como uniforme de trabalho blazer e calça de alfaiataria (adaptados para o corpo feminino), mas o uso da saia não foi abandonado para o ambiente de trabalho. O tailleur, introduzido por Coco Chanel, é um traje comumente utilizado pelas mulheres em escritórios.

Tailleur Chanel na década de 60.

Tailleur Chanel na década de 60.

É também necessário lembrar que apesar de atualmente as mulheres usarem as mesmas peças de roupas que os homens e os homens poderem abusar de certas fantasias, a moda não ficou totalmente igualitária. Ambos os sexos, por exemplo, têm de seguir normas para vestirem-se no trabalho, mas é notável que as mulheres têm mais liberdade de variar suas roupas até mesmo em ambientes formais e considerados sérios. Podem combinar cores e acessórios diferentes adaptados ao terno ou tailleur e ainda assim estarem adequadas. Diferente disso é o caso dos homens, que variam pouco quanto às cores (sóbrias e neutras) e seus acessórios são primeiramente funcionais, antes de serem decorativos. Nos anos 70 a moda masculina lançou ternos de cores e padronagens mais fortes e chamativas, o que ficou muito popular na época, porém esse tipo de moda é sempre muito passageira, principalmente para o público masculino. O clássico terno de cores sóbrias logo voltou.

Ternos da década de 1970.

Ternos da década de 1970.

Fora do ambiente conservador, as diferenças também aparecem nos locais de lazer: a calça jeans, considerada unissex, na verdade tem um corte diferente para cada um; a fivela de um sapato, ou qualquer outro detalhe, já pode transparecer a que gênero aquele produto se destina. Uma camisa de homem também se diferencia de um chemisier feminino. A moda nunca deixou de organizar signos diferenciais, e que através de mínimos detalhes, como frisa bem o autor, consegue dividir as aparências.

As propagandas de jeans normalmente representam homens e mulheres de maneira parecida para afirmar a característica unissex, mas ainda assim, há mudanças na peça para ambos sexos.

As propagandas de jeans normalmente representam homens e mulheres de maneira parecida para afirmar a característica unissex, mas ainda assim, há mudanças na peça para ambos sexos.

Dolly, October 1987 - Lee Cooper jeans ad

Propaganda de jeans Lee Cooper de 1987.

Ainda assim, as mulheres podem transitar entre dois mundos quando bem quiserem: a de aparência extremamente feminina, usando vestidos, saias e maquiagem, ou a uma aparência mais sóbria e masculina, se fizerem o uso de uma calça e camisa. Os homens só podem aventurar-se em seu próprio mundo de códigos masculinos, e se olharem para fora desse mundo, mesmo que timidamente, já pode chamar atenção negativamente na grande maioria das sociedades atuais. Dessa forma, mostra Lipovetsky, a moda não consegue ser tão libertadora e divertida quanto quer ser. Os códigos masculinos estão fortemente sólidos e até hoje não se conseguiu derrubá-los. A passos lentos, alguns detalhes passam a ser transformados, mas só por um grupo específico. Alguns estilistas como Jean Paul Gaultier e John Galliano exploram muito o corpo masculino e mescla gêneros com saias e espartilhos para homens, mas são imagens que ganham um perfil perturbador para a sociedade e não saem, portanto, das passarelas.

Uma explicação que Lipovetsky dá a esse tipo de relação dos gêneros com as roupas, seria por uma questão cultural de, desde o século XIX, o masculino ser “contra” a moda e a signos de sedução (só mulheres tem a obrigação de seduzir hoje). E homens adotando símbolos femininos para si, seria uma transgressão muito grande, que nossa sociedade ainda não admite.

John Galliano - Primavera/ Verão 2010

John Galliano – Primavera/ Verão 2010

John Galliano - Primavera/ Verão 2010

John Galliano – Primavera/ Verão 2010

O sistema da moda atual é praticamente o mesmo do que o autor chama de Moda de Cem Anos, presente durante todo o século XX. O uso de calças pela mulher não foi uma renúncia à sua feminilidade, mas mais uma possibilidade para seu vestuário, pois a essência da moda é trazer a novidade, transgredir e desprezar o passado, porém essas ações só cabem ao feminino (a moda não consegue moldar e influenciar tudo). Com cada vez mais produtos personalizados, a busca de uma identidade própria e valorização da individualidade, homens começam cada vez mais despertar um desejo de saírem da sobriedade e despirem-se de suas roupas igualitárias.

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