Yohji Yamamoto: O Velho-Novo Japão

O estilista japonês Yohji Yamamoto diz que suas roupas são “atemporais” e sem uma característica nacional típica definida, apesar dos críticos continuarem a chamá-las de “japonesas”. É difícil mesmo rotular essas roupas, já que nelas se encontram características que pode-se chamar de “opostas”, mas que formam um design único. Essa roupa passa a impressão de velha e nova ao mesmo tempo, tradicional e vanguardista e com algo que sim, nos remete ao Japão, mas talvez seja preciso um olhar mais atento para se dar conta.

Yohji Yamamoto Outono/ Inverno 2010

Yohji Yamamoto - Primavera/ Verão 2012

Yohji Yamamoto – Primavera/ Verão 2012

Yohji Yamamoto - Outono/ Inverno 2012

Yohji Yamamoto – Outono/ Inverno 2012

Yohji Yamamoto - Outono/ Inverno 2009

Yohji Yamamoto – Outono/ Inverno 2009

A roupa tradicional japonesa se mostra bem diferente do que tem sido usado no ocidente desde os primórdios da idade média: enquanto a roupa européia se ajusta e marca o corpo, as roupas japonesas dão mais espaço entre tecido e pele.

Traje do período Heian (794 - 1185)

Traje do período Heian (794 – 1185)

Yohji sintetiza as transformações sofridas pelo Japão desde os primórdios da sua história política e social. Apesar de tantas mudanças, o país ainda apresenta um isolamento em termos de preservação da família e religião tradicional. Principalmente tendo como influência a roupa que vem desde a restauração Meiji passando por nossa era contemporânea, o estilista também vai além e mostra o futuro em suas peças: seu estilo é único e sua roupa sempre está à frente de seu tempo. Tempo que talvez não exista, o que confirma as palavras do próprio quando diz que suas peças são atemporais. Mesmo novas, elas trazem uma sensação de uso prévio e história, porém também são futuristas, pois não se encaixam em nosso tempo e em nenhum tempo passado.

A faixa que prende o kosode foi alargada no começo do século XIX e cobria boa parte do tronco.

Kitagawa Utamaro, “Alta Sociedade”, final do século XVIII.

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Kitagawa Utamaro, “Cena em cima e ebaixo da ponte”, final do século XVIII.

Yohji Yamamoto - Primavera/ Verão 1984

Yohji Yamamoto – Primavera/ Verão 1984

Vestido 1979

Vestido 1979

Dessa forma, sua marca vai além da moda e não segue tendências, se é que é possível. A prova disso é que a mesma roupa de 1981 não se mostra antiga perto de uma de 2013.  Um leigo não saberia dizer qual veio antes e qual veio depois se não conhecer o trabalho do estilista. Apesar de sua roupa ser tão avançada, a influência japonesa é evidente quando se estuda a indumentária do país: como já foi dito, o espaço entre o tecido e a pele de quem veste, as formas soltas dadas às peças, além de técnicas de tingimento tipicamente japonesas como yuzen e shibori. Muitas peças e seus looks com várias camadas de tecido também remetem ao Japão feudal.

Casaco, começo dos anos 80.

Casaco, começo dos anos 80.

Yohji Yamamoto - Primavera/ Verão 2013

Yohji Yamamoto – Primavera/ Verão 2013

Saia com técnica de tingimento/ estampa yuzen.

Saia com técnica de tingimento/ estampa yuzen.

Yohji Yamamoto - Primavera/ Verão 2013

Yohji Yamamoto – Primavera/ Verão 2013

Quando se conhece melhor as peças de Yamamoto, também fica evidente seu interesse pelos materiais, maior do que o da própria forma dada à roupa; o primeiro deve dizer como o segundo deve ser. Como o próprio estilista disse: “O tecido é tudo. Ocasionalmente digo aos meus modelistas: Apenas ouça o material. O que ele vai dizer? Apenas espere. Provavelmente o material te ensinará algo.”.

Yohji Yamamoto - Outono/ Inverno 1983

Yohji Yamamoto – Outono/ Inverno 1983

Yohji Yamamoto - Outono/ Inverno 1997.

Yohji Yamamoto – Outono/ Inverno 1997.

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Yohji Yamamoto – Outono/ Inverno 1995

Carla Sozzani, uma editora de moda italiana, descreve o trabalho de Yamamoto quando visto pela primeira vez em Paris em 1981 como um “choque emocional” e que “suas roupas eram como uma revolução”. Sua estética era completamente oposta às das passarelas da época, onde se via apenas ombros largos e marcados, maquiagem forte e marcante e salto alto. Conseguimos ver através das roupas de Yamamoto o conservadorismo e modernidade do Japão, dois conceitos opostos, mas que funcionam muito bem quando bem trabalhados.

A silhueta, as camadas de tecido, materiais e técnicas de tingimento que nos remetem ao Japão tradicional, trazem também uma severidade e melancolia as quais podem ser associadas, segundo o estilista, à Tóquio destruída depois de bombardeada durante a  Segunda Guerra, onde ele nasceu e afirma que talvez essa seja sua raiz.

Yohji Yamamoto - 1983

Yohji Yamamoto – 1983

Yohji Yamamoto - Outono/ Inverno 1999

Yohji Yamamoto – Outono/ Inverno 1999

A estética revolucionária que Yohji passou a apresentar em seus desfiles para o mundo, desde 1981, era desagradável, mas trouxe um mistério e uma nova sensualidade, muito diferente do que se via na época. Uma mulher andrógina, de camisas e calças largas, mas que transmitia sua sensualidade por estar tão confortável em si mesma. Yamamoto disse: “Acredito que ajustar as roupas de forma apertada em um corpo feminino é para o divertimento do homem…não me parece nobre. Também não é educado mostrar muito às outras pessoas.”.

Yohji Yamamoto - Outono/ Inverno 1986

Yohji Yamamoto – Outono/ Inverno 1986

Yohji Yamamoto - Primavera/ Verão 1997

Yohji Yamamoto – Primavera/ Verão 1997

Yohji Yamamoto Backstage - Primavera/ Verão 2008

Yohji Yamamoto Backstage – Primavera/ Verão 2008

Yohji Yamamoto - Primavera/ Verão 1997

Yohji Yamamoto – Primavera/ Verão 1997

Além disso, a estética do imperfeito começou a criar força na moda nesse período. Não era mais apenas o imperfeito dos jovens que queriam se rebelar; era um imperfeito chique, formas e materiais puros, sem interferências excessivas, e que resultava em uma silhueta complexa e sofisticada. Nos anos 80 ainda era um visual suficientemente estranho e melancólico para causar uma aceitação maior; o humor de suas peças era muito diferente do da década. Porém, como foi brevemente falado aqui, os anos 90 se apropriaram dessa estética do imperfeito que passou a ser vinculada em revistas como Vogue e, assim, a tornou bela e desejável para as massas. Ainda assim, havia a própria característica andrógina e destruída, mas ao mesmo tempo elegante que se manteve fiel a Yohji. Mesmo essa estética tendo sido engolida pela moda, a marca Yohji Yamamoto sempre esteve além de seu tempo.

Yohji Yamamoto - Primavera/ Verão 1983

Yohji Yamamoto – Primavera/ Verão 1983

A professora de Sociologia da New York’s Fashion Institute of Technology, Yuniya Kawamura, disse: “Yamamoto sugeriu um novo estilo e redefiniu a estética que pode ser encontrado por todas as suas coleções através dos anos. Agora, se aproximando de sua quarta década em Paris, Yamamoto raramente de dispersa de sua visão monástica.”.

Yohji Yamamoto - 1984 e 1986

Yohji Yamamoto – 1984 e 1986

Yohji Yamamoto - Primavera/ Verão 2013

Yohji Yamamoto – Primavera/ Verão 2013

Yohji Yamamoto - Primavera/ Verão 2012

Yohji Yamamoto – Primavera/ Verão 2012

Toda a vanguarda e tradicionalismo de Yamamoto se relaciona com a tradicional cultura japonesa de valorizar e firmar suas raízes com a sede de avanço para o futuro. A curadora de uma exposição sobre Yohji Yamamoto, Ligaya Salazar,  disse: “sua insistência na imperfeição se relaciona diretamente a uma das chaves ideais da estética japonesa, o wabi-sabi, que descreve a aceitação da imperfeição, impermanência e a incompletude de um objeto.”.

Cena do filme "Dolls" de 2002, com direção de Takeshi Kitano, o qual Yamamoto desenvolveu o figurino.

Cena do filme “Dolls” de 2002, com direção de Takeshi Kitano, o qual Yamamoto desenvolveu o figurino.

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3 thoughts on “Yohji Yamamoto: O Velho-Novo Japão

  1. Muito bom encontrar esse texto completo sobre o mestre japonês. Acho o trabalho dele genial, junto com o que Rei Kawakubo fez/faz…e merece sim uma reflexão crítica mais ampla e profunda.
    Parabéns

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