O Estranho nos anos 90 e no Século XIX

O livro “O Estranho na Moda”, de Silvana Holzmeister é focado principalmente nos anos 90 e se arrisca a fazer uma comparação entre essa década com o século XIX. A princípio ambos parecem em nada se assemelhar, mas ela levantou pontos que achei bem interessantes e depois resolvi pesquisar mais também.

Silvana primeiramente fala sobre o humor e o inconsciente coletivo dos anos 90, que claro, se refletiu na moda (acho interessante como só conseguimos falar qual é a “cara” de uma década depois que já nos afastamos alguns anos dela). Como já é afirmado e aceito, uma moda nega a outra, e a negação da vez era às belas modelos de sorriso perfeito, proporções de rosto equilibradas e com um corpo magro, mas curvilíneo e saudável. Também ao luxo, ao glamour, e ao dispêndio exagerado.  Veja bem, a anti-moda dos punks e de outras subculturas, além de estilistas japoneses nos anos 80 com suas roupas desconstruídas e rasgadas já existiam bem antes dos anos 90, porém essa estética decadente nunca havia sido tão celebrada e sim, glamourizada pelas revistas e por marcas de luxo. A estética ideal então passou a ser um corpo magro, com aparência doentia, rostos com olhares vagos e sem expressão, ambientes decadentes, solitários e perigosos.

Peças destruídas e sem acabamento apareceram primeiro em marcas de vanguarda, e só mais tarde marcas mais tradicionais começaram a adotar a estética.

Peças destruídas e sem acabamento apareceram primeiro em marcas de vanguarda, e só mais tarde marcas mais tradicionais começaram a adotar a estética.

Kate Moss por Corinne Day no começo dos anos 90.

E que paralelos podem ser traçados com o século XIX? Bem, primeiro podemos dizer que o final de ambos os séculos, XIX e XX, criaram uma atmosfera pessimista na sociedade, por alguns motivos tão diferentes e outros tão parecidos. Os dois períodos estavam vivendo a cultura de consumo de modo intenso, mas cada um seu modo, de acordo com suas possibilidades. No final do século XIX a sociedade já podia usufruir bem do que trouxe a Revolução Industrial e a tecnologia passou a avançar com cada vez mais velocidade e com mais máquinas. E mesmo no começo do século, após a Revolução Francesa, onde o pensamento vigente era conter os excessos, isso logo mudou com a burguesia fortalecida, que agora seria a nova nobreza e poderia gozar dos mesmos luxos. Porém, diferentemente de seu século anterior, no século XIX o “objeto de luxo” eram as próprias mulheres, que ostentavam o poder de sua família em suas roupas, cabelo, maquiagem e adornos.  A mulher nessa época realmente não tinha muitos deveres na sociedade, além do de ser bela para ser vista e exibida como um troféu por seus maridos.

A dessemelhança gritante entre o vestuário masculino e feminino já denota a função social de cada um.

A dessemelhança gritante entre o vestuário masculino e feminino já denota a função social de cada um.

Já a mulher dos anos 90 tinha o mundo aos seus pés para consumir e se lambuzar. Tinha à disposição tantas opções de moda e diversos tratamentos estéticos e médicos para poder se transformar nas lindas mulheres das revistas; se plastificarem e serem felizes. A comparação que Silvana trouxe em seu livro para essas mulheres de diferentes períodos foram as bonecas, que é a quê essas mulheres foram comparadas em cada época por alguns escritores como Emile Zola ou Walter Benjamin. As mulheres se torturam e penam para obter um visual que na realidade é inumano, como podemos notar nas que usavam seus espartilhos apertadíssimos junto com anquinhas que davam uma silhueta de S, vistos há dois séculos. As bonecas chegaram ao ápice de seu requinte em sua fabricação também no século XIX, na França, sendo um objeto de grande valor e estima da sociedade.

A silhueta em S das damas do século XIX

A silhueta em S das damas do século XIX

Outro ponto de comparação que gostei do livro, é que Silvana aponta que em ambos os períodos o medo da relação homem x máquina se aflora e contribui para o medo do homem ser dominado pelas próprias criaturas. No século XIX a tecnologia era puramente mecânica, mas avançava com velocidade suficiente para assustar e mostrar que sozinha pode fazer o de 50 homens em uma hora. Vemos manifestações desse medo na literatura, como “Frankenstein” de Mary Shelley, ainda no começo do século. Nos anos 90 essa fase já havia sido superada, pois agora a era digital estava para começar: novas ameaças, mesmos medos. Os anos 90 transmitem a mesma atmosfera dos 1800s tardios. É sombria e inanimada, triste sem consciência do porquê. Lembro-me que era difícil dizer o que os anos 90 representaram, pois todos sentiam que não representaram nada, não havia mais para onde irmos mais. Os jovens não tinham mais causas e ideais, foram bem criados, não sofreram como seus pais. Quando ficavam bravos ou tristes, apenas se trancavam em seu quarto com suas músicas. Também procuravam se distrair com drogas, mas estas agora não eram mais algo para libertar mentes e vozes e servirem também como protesto. As drogas passaram a ser parte de um momento para ignorar o outro.

Ewan McGregor como Mark Renton, um jovem viciado em heroína no filme “Trainspotting”, de 1996.

Jamie King, modelo a qual foi descoberta ser usuária de heroína aos 16 anos, com um look característico anos 90.Jamie King, modelo a qual foi descoberta ser usuária de heroína aos 16 anos, com um look característico anos 90.

O mundo dos negócios e capitalista foi exaltado nos anos 80, mas aparentemente o consumo excessivo trouxe desorientação, desilusão e tédio, como apontam os filósofos Gilles Lipovetsky em “A Felicidade Paradoxal” e Lars Svendsen em “A Filosofia do Tédio”. Como as pessoas não conseguiram encontrar nele a felicidade que procuravam, se tornaram apenas uma modificada e bela casca vazia, o que é muito bem representado pela fotografia de moda dos anos 90, com modelos esquálidas, mas belas, e apáticas, em um cenário confuso e sem sentido. E a moda, cumprindo seu papel, transformou esse look bizarro e repugnante em desejável. Mas claro que já procuravam isso em seu íntimo e descobriram um interesse no horror e, assim, que feiura também poderia ser bela. Aqui, eu traço outro paralelo com o século XIX, que nesse período estava em alta na literatura os romances góticos, fantásticos, vampirescos e de terror. E essas histórias traziam em suas narrativas e descrições um mundo sombrio, sentimentos ora reprimidos, ora exacerbados. Doenças, alucinações, visões de outro mundo, amargura com a vida, mas principalmente, personagens que conseguiam seduzir seus leitores com seus devaneios, angústias e anseios. Talvez por serem tão humanos e não conseguirem demonstrar isso. E assim, a estética do horror passou a ser também bela e desejável, pois é misteriosa e profunda e continuou sendo propagada ao longo do século XX, principalmente através do cinema. Assim, o look heroin chic dos anos 90 também mostrou sua beleza em meio a palidez, magreza, ar sombrio, olhar perdido junto a cigarros e bebidas. Ao mesmo tempo em que algo te repele também te causa fascínio e curiosidade e te leva também em direção a ele.

A morte foi muitas vezes retratada como algo sublime e idealizado na arte do século XIX, como em "Ophelia" de John Everett Millais em 1851.

A morte foi muitas vezes retratada como algo sublime e idealizado na arte do século XIX, como em “Ophelia” de John Everett Millais em 1851.

Cenas do irreal e inconsciente, como a personagem "Carmilla", de conto de mesmo nome de Joseph Sheridan Le Fanu, escrito em 1981.

Cenas do irreal e inconsciente, como a personagem “Carmilla”, de conto de mesmo nome de Joseph Sheridan Le Fanu, escrito em 1981.

A moda anos 90...

A moda anos 90…

E o "terror" anos 90.

E o “terror” anos 90.

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One thought on “O Estranho nos anos 90 e no Século XIX

  1. nossa, estou pesquisando sobre essa época e realmente, muitos dos seus apontamentos, mesmo que venham também do livro que te foi referência, são muito similares á minha visão desses anos…

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